domingo, 2 de agosto de 2015

Do meu exílio domiciliar


Minha casa, minha (nova) vida, um pintura do real.
"Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte"MÁRIO DE ANDRADE (poeta, 1893 – 1945)"O valioso tempo dos maduros" 
Bem que eu preferia permanecer em silêncio nesse frugal exílio domiciliar a que me recolhi nas vargens longínquas ante a patética percepção de que minhas palavras já não têm serventia: o vento leva por que sua essência caiu em desuso letárgico no cataclismo de um mundo acorrentado à hipocrisia e à mediocridade.

Bem que já estava começando a curtir a vida às avessas que os prados mansamente matutos e o plantio frondoso ao palmo do nariz nutrem, vacinando-nos do vírus da encrenca e mandando para o inferno o áudio das sandices e boçalidades que nos horripilam na indecência da convivência pragmática.

Juro por tudo quanto é sagrado: eu não queria mais pular tantas fogueiras e porfiar com a fina flor da má fé, do arrivismo e das ambições desmedidas, eis que, enfim, ao cabo, minha cota de complacência com o egoísmo esgotou-se sem choro, nem vela.

De umas luas para cá vi revelar-se a torpeza do jogo de cartas marcadas, a insana corrida ao poder, qualquer poder, COMO SE A VIDA DE UMA PÁTRIA FOSSE DECIDIDA NUM GRANDE RINGUE DE PERFÍDIAS E RASTEIRAS, cada qual tratando única e exclusivamente de seus interesses pecuniários nada republicanos.

A saúde já não é a mesma, quer pela idade provecta, quer pelos acidentes de percurso, essa guerrilha sofrida que me obriga, por ora, ao cloridrato de tramadol diário e à ressonância magnética de quando em vez.

Ferem-me como uma flecha, mais ainda, os próprios sentimentos de impaciência, frutos da trágica constatação de que O SISTEMA DE CASTAS TRIUNFA GALHARDAMENTE, ABESTALHANDO MULTIDÕES BEM APESSOADAS, SEJAM PORTADORAS DE CANUDOS E ANÉIS, SEJAM EMASCULADOS DA TURBA IGNORANTE E SUBALTERNADA PELA INÉRCIA VIRAL SEM CURA, SOB INFLUÊNCIAS NOCIVAS DA FÉ INDUSTRIADA.

Mas a previsão do tempo é assustadora. Os maus presságios a todos ameaçam numa torrente de vilipêndios irresponsáveis e inconsequentes, sujeitando-nos às mentes monstruosas que se multiplicam aos borbotões como ferramentas atômicas de terras arrasadas, produzidas maliciosamente por vestais de encomenda, na torpe maquinação do "quando pior melhor".
O certo e incontestável é que o retrocesso se deu pelas mãos de quem o esconjurava, num irreversível e inacreditável passo atrás. A terra virou pântano e o pântano virou lama. 
Sobrará para todos pela marcha de um trem veloz sem condutor. Há todo tipo de odores no ar. Insuportável é a ansiedade. Onde vamos chegar só Deus sabe. E olha que até o tal expatriou-se ao ver-se em tantos maus lençóis. Não há pra quem apelar: todos estão envolvidos com tudo até o pescoço.

Em verdade, vos digo: eles venceram na inversão das urnas. Mas ainda acham pouco. Não aceitam coadjuvar. Querem ir para o trono e assumir o reino de fio a pavio. À falta de "coriolanos" forjam um exército virtual armado até os dentes. Este país é uma mina que sobe a cabeça dos sem escrúpulos. Tomá-lo às mãos é o que interessa.

Vilões de assombrosas fichas sujas dão as cartas, apostando na concentração do ódio e na mescla de revanches e indignidades. Não há uma réstia de lucidez nesses bolsões vingativos. Todos querem uma única cabeça, mesmo associando-se ao pior da escória moral. 

E querem por que não aceitam o próprio fiasco. Para isso, se valem de tudo, sem menor apego aos cânones dos bons modos. Nada mais deprimente e enlouquecedor. Nada mais agressivo e perturbador.

Daí a dúvida atroz: é correta a fuga à liça, mesmo sabendo que apenas uma meia dúzia de três ou quatro se tocará ao meu juízo, à peroração de um mais vivido, casualmente à prova de comprometimentos mesquinhos, assim em condições de falar apenas para defender o áureo convívio institucional, o respeito à ponderação, sem poupar os malfeitos gerais, na perseguição de um outro país que nascerá desse imbróglio insólito?

Dias e noites os tormentos do isolamento voluntário me tangem na direção da pugna, desautorizando promessas que me fizera em busca da paz e do sossego que qualquer ser vivente tem o direito de almejar com o benefício da contribuição pretérita. 

São vozes e imagens dantescas, mais altissonantes do que o canto dos pássaros à varanda, mais saltitantes do que o firmamento contemplado já ao crepúsculo no entardecer.

Não me animo à consulta aos entes queridos. Eles testemunharam minha derrota acachapante, não faz muito. Preferem-me à deriva, no exercício do silêncio obsequioso, no conforto quimérico do ostracismo, protegendo-me dos atritos no confronto estéril das palavras.

Acham que tudo o mais será inútil, de onde a opção fatal: dos males, o menor. Será?

Por hoje é só. Agosto já está começando, sombrio, apoplético e catastrófico, com os maus agouros de sua sina zodiacal. O que fazer? - perguntaria o velho prócer doutra época. Quem se dignaria a responder? É pegar ou largar. E nada mais.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Cobrança à mão armada

Empresa de segurança bloqueia condomínio na Península, depois de afastada, por querer receber mais

A Souza Lima estacionou seus veículos à saída do condomínio


"Eu, muito inocente, quando vi a cena, achei que era a segurança particular de um mega VIP" - o
comentário de Natascha Natsc expressa o clima de perplexidade que tomou conta dos moradores do Saint Barth nesta tarde amena de 3 de junho. E não era pra menos: homens armados e com o uniforme da Souza Lima, uma empresa de vigilância que se jacta em anúncio de ser a que mais cresce no momento, postaram-se diante das 3 portarias desse condomínio de 330 apartamentos aqui na Península, numa cena impensável para os dias de hoje, quando se supõe respirar a plenitude do regime de direito.

Aline Costal Barreira, que postou a primeira informação no grupo do Saint Barth no Facebook não escondia sua indignação: "As 3 portarias estavam fechadas por guardas ARMADOS de fuzil de uma empresa particular (não tenho certeza se era da Assap)".

"Quando eu perguntei pro chefe deles (que estava completamente civil e não se identificou) o que estava acontecendo, ele simplesmente disse que era uma "operação sigilosa". O que??? Eles nem eram da polícia!!!! Dissemos que íamos chamar a polícia".

Aquela altura, crianças começavam a voltar da escola e também pareciam amedrontadas. Provavelmente, não haviam se deparado antes com aqueles fuzis à porta de casa. Pela internet e pelo telefone, os moradores passaram a se comunicar diretamente com o síndico, Jorge Biasio, pedindo esclarecimentos:

Os homens da empresa de segurança bloquearam
as 3 portarias por algum tempo.
Ele respondeu mais de uma vez na página do condomínio: "No mês de abril, começamos o processo de transição da nossa segurança contratada para interna. Demos o aviso para a empresa Souza Lima, que nesse mês negligenciou o atendimento no condomínio e abandonou o serviço dois dias antes do término do contrato. Agora em maio, teríamos que pagar a empresa. Pegamos o contrato e descontamos do valor do contrato aquilo que nesse mês eles deixaram de nos atender. A empresa se recusava a receber valor menor que o do contrato e nos ameaçava de resolver o assunto na justiça.

Antes de eles irem para a justiça, resolveram trazer 6 carros com seguranças armados e fecharam nossas entradas e saídas com o intuito de nos intimidar. Eu estava do lado de fora do prédio discutindo com o encarregado da Souza Lima, quando chegou a segurança da ASSAPE. A partir daí mudou o tom da conversa e eles desbloquearam as entradas do condomínio. Estamos tomando as medidas legais cabíveis para esse caso."

Veículos estacionados bloqueando os portões e homens armados de vistosos fuzis só  serviram para gerar um clima de revolta e de solidariedade ao síndico, que se colocou à frente de uma das portarias para exigir o imediato desbloqueio. Foi como descreveu a moradora Marina Mendonça: "Um absurdo o que eu vi  a antiga empresa fazendo na portaria 3! Uma coisa ostensiva, intimidadora! Quero registrar também, que nosso síndico, mesmo em uma situação bem tensa, foi lá fora e enfrentou todos que estavam lá visivelmente alterados".

A primeira consequência desse fato gravíssimo foi registrada por Cleo Moreira:  "Sensação de insegurança!!! Abuso de poder! Violação de propriedade alheia, ameaça a vida dos moradores. Absurdo total! Precisamos de imprensa".

Ao longo de mais de meio século como jornalista não havia me deparado com uma situação tão bizarra. Na minha família, houve até quem duvidasse que uma empresa de vigilância, fiscalizada pela Polícia Federal, chegasse a esse extremo. Mas os relatos de quem vivenciou os fatos e algumas fotos e vídeos não deixam dúvida: a tal operação sigilosa com a exibição de material bélico foi a forma que a empresa contrariada encontrou para intimidar a administração do Condomínio Saint Barth e disseminar uma sensação de medo generalizado entre todos os moradores. Isso usando como pretexto a divergência que pode e deve ser dirimida na esfera do Judiciário.

Há uma avalanche de manifestações no Facebook, inclusive no grupo Reais Amigos da Península. A expectativa é de que essa ação despropositada seja levada às autoridades de segurança em todas as esferas.  Abriu-se um perigoso precedente e é plausível imaginar que essa forma de "cobrança" produza filhotes em outros condomínios.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Não recorra a bodes expiatórios

Se você não consegue enfrentar seus problemas econômicos, sociais, existenciais e afetivos não procure bodes expiatórios. Dê um tempo e descubra a zona de lucidez que ainda existe em seu cérebro. 

Os problemas econômicos são como um câncer, dependem da fase em que forem diagnosticados. Os sociais são como um diabetes, a primeira providência é uma dieta saudável. Os existenciais são como a AIDS, só um coquetel de remédios ajuda a minimizar seu sofrimento.  Já os afetivos são como a esquizofrenia, o mais indicado é procurar um especialista imediatamente por que, de fato, não há remédio que cure.  

quinta-feira, 26 de março de 2015

CONDOMÍNIOS FECHADOS EM DEBATE

Por ser do interesse de todos da Península, transcrevemos aqui a matéria do GLOBO BARRA deste dia 26 de março de 2015.
Sob uma taxa mensal de pouco mais de R$ 800, condomínio detém exclusividade em praça

Barra concentra o maior número de contratos de privatização de espaços públicos; medida prevista na constituição divide juristas

POR 
RIO - Qual o limite entre o espaço público e o privado? Essa fronteira, quase sempre clara, é dividida por uma linha tênue na Barra. No bairro há 81 contratos de cessão de uso, o maior número da cidade. A grande quantidade de permissões, que possibilitam a um condomínio usar uma área pública com exclusividade, divide moradores. Enquanto complexos residenciais alegam buscar mais segurança, os demais cidadãos reclamam de interferências em seu direito de ir e vir.
Desde 2000, a Associação de Moradores e Amigos do Jardim Barra Linda (Amalinda) tem, por força de contrato, direito sobre a praça que fica no final da Rua Pierre Plancher. Muito frequentada por outros moradores da região, em especial por donos de cães, a praça amanheceu fechada no final de dezembro.

— Instalaram uma placa informando que iriam colocar veneno contra pragas. No início achamos normal, mas depois percebemos que nunca mais abririam a praça — lamenta Maria Letícia, frequentadora do espaço há sete anos, que não quis revelar seu sobrenome.

Indignados com o fechamento, os antigos frequentadores, que chegaram a criar um grupo no Facebook chamado Parcão Barra, com mais de cem membros, começaram a buscar informações.

— Há uma placa dizendo que a área é propriedade particular, junto com o número de um processo. O que nos incomoda é que a associação não nos deu esclarecimento algum. Só queremos nosso direito de ir e vir e saber quais são os verdadeiros poderes dos que se consideram donos do pedaço. Se necessário, entraremos com uma ação judicial para reabrir a praça e torná-la um bem de todos os cidadãos novamente — garante Daniela, outra moradora que não quis dar o nome completo.

Moradora do Jardim Oceânico, Maria José afirma que chegou a se oferecer para contribuir financeiramente com a manutenção do espaço em mais de uma ocasião, possibilidade rejeitada pelo síndico da Amalinda:

— Egoísmo fechar assim. Nós nunca causamos problema algum à praça, sempre limpávamos os dejetos dos cães.

Já o presidente da Amalinda, João Carlos Lameirinha, diz que a decisão foi tomada na assembleia de janeiro, após moradores reclamarem do comportamento de frequentadores de fora do condomínio, e não deve ser modificada:

— De um ano para cá, que o espaço ficou conhecido e passou a vir gente de todo canto da Barra. Tivemos casos como depredação de placas, cães que morderam pessoas, donos que não recolhiam as fezes. Quando adquirimos o direito sobre o terreno, a área estava abandonada; nós é que realizamos as benfeitorias. Já houve até questionamento do Ministério Público, mas comprovamos que tudo estava regularizado.


A subprefeitura da Barra e Jacarepaguá informa que a Amalinda tem permissão de uso do espaço e, para isso, paga uma taxa mensal de R$ 838,70. Após reclamações de moradores insatisfeitos com o fechamento, o órgão vistoriou a praça e não constatou irregularidades.

Segundo vizinhos do Amalinda, a falta de informação motiva os questionamentos e protestos. O superintendente de Patrimônio Imobiliário da Secretaria municipal de Fazenda, Fabricio Tanure, diz que a divulgação da concessão de uso à comunidade é uma medida que deve ser prevista em novos contratos:

— (O contrato de cessão) Só é informado no Diário Oficial. Seria interessante uma legislação que obrigasse os contratantes a estampar os contratos, assim como os estabelecimentos comerciais precisam exibir alvarás. Hoje, eles o fazem se quiserem, mas vamos estudar essa maior divulgação nos próximos acordos.

Segundo Tanure, o modelo de expansão da Barra, a partir do surgimento de megacondomínios residenciais, fez com que espaços públicos fossem “interiorizados”:

— Há as áreas que podem ser usadas por qualquer pessoa, mas estão dentro dos condomínios, e os espaços de uso exclusivo dos moradores desses residenciais. No Rio, são cerca de 500 contratos de permissão de uso, a grande maioria na Barra. Existe fiscalização de rotina, para saber se o contratante está agindo de acordo com a lei, mas, na teoria, ele pode vedar a circulação de terceiros.

Em relação à colocação de guaritas nas entradas de ruas, outro ponto que suscita a indignação de muitos cidadãos, não há necessidade de contrato de cessão, apenas autorização da subprefeitura local, sem pagamento de taxas. Os conjuntos residenciais que solicitam autorização para tal em geral alegam razões de segurança, mas há casos como o do condomínio Praia da Barra, que paga cerca de R$ 2 mil mensais para usar uma pista de rolamento da Avenida Afonso Arinos de Melo Franco como estacionamento.

— Esse processo existe desde 1995, quando solicitamos o uso da via à prefeitura. O objetivo não é impedir a entrada, mas filtrar quem circula. Qualquer um pode parar aqui, desde que haja vaga — garante a síndica Andreia Bures. — Há outros condomínios fazendo a mesma coisa.

Privatizações de ruas divide juristas

Professor de direito administrativo da FGV, Sérgio Guerra entende que a apropriação do espaço público, ainda que prevista na Constituição, é uma questão subjetiva, e diz que a maioria dos juristas é contra o uso exclusivo pelo contratante.

— Se a permissão frustra uma maioria, ela pode ser tida como inconstitucional; tudo depende da interpretação do juiz. Há doutrinadores que sustentam a tese de que contratos podem permitir o veto à entrada de terceiros, mas tal linha, à qual aparentemente pertence a prefeitura, é minoria. Não concordo em fechar totalmente. Acho que pode-se conceder autorizações para colocar guaritas, por exemplo, mas os bens públicos de uso comum precisam ser respeitados — diz.

Na semana passada, a prefeitura enviou à Câmara dos Vereadores, em regime de urgência, um novo pacote de medidas regulamentando o uso da superfície da cidade. Entre as propostas estão a possibilidade de ligar prédios por passarelas e ocupar espaços subterrâneos de praças.

Fabricio Tanure, superintendente de Patrimônio Imobiliário da Secretaria municipal de Fazenda, afirma que o pacote é um avanço:

— A prefeitura, com base no Plano Diretor, quer estimular a criatividade nos empreendimentos, para fomentar o mercado imobiliário e incentivar projetos mais arrojados, como os de grandes metrópoles.

Já a vereadora Teresa Bergher (PSDB) luta para que o prefeito retire o regime de urgência e permita que o projeto seja discutido pela sociedade com mais tempo:

— Está tudo muito genérico, e esse pacotaço vai mexer com a vida dos moradores. Precisamos promover audiências públicas. Nada justifica a urgência. Sabemos que o prefeito quer fazer caixa, mas ele deveria reduzir gastos, não optar pela receita do menor esforço, vendendo patrimônio municipal à iniciativa privada.

Projeto polêmico em área ambiental

Um projeto do condomínio Pedra de Itaúna para construção de um complexo esportivo, com quadras de vôlei, tênis e churrasqueiras, em terreno que fica na Área de Proteção Ambiental (APA) do Parque de Marapendi, preocupa parte dos moradores. Ainda não há obra, mas dois deles, que não quiseram se identificar, dizem que tem havido corte de árvores no local.

O terreno tem 18.l940m² e foi desmatado pela construtora Brascan há cerca de 30 anos, segundo a administração do Pedra de Itaúna. A intenção era construir um clube náutico, o que não ocorreu. Há três anos, o condomínio adquiriu o terreno da Brookfield.
— Há uma ideia de, no futuro, fazer algo ali. Não há nada definido, só um croqui aprovado em assembleia. Vamos dar entrada na prefeitura para fazer banheiros, ciclovia e quadras. Pela lei, podemos construir em até 10% da área — diz Reginaldo Serpa, síndico do edifício Lagoa Azul, que nega ter havido corte de árvores. — Não há movimentação alguma de operários. É um absurdo dizer isso, só cortamos mato. Não faremos nada sem autorização.

Já uma das moradoras diz que, há três semanas, troncos são cortados. Quando O GLOBO-Barra foi ao local, funcionários trabalhavam na área da APA, em meio a troncos caídos. Outro morador diz que parte dos residentes queria reflorestar a área, mas a maioria preferiu o projeto esportivo.

Procuradas, as secretarias municipais de Urbanismo e Meio Ambiente (SMAC) foram ao local e informaram não ter constatado irregularidades, já que não encontraram indícios de movimentação de terra ou retirada de vegetação nova. A SMAC diz que não houve pedido de licenciamento para construção na APA e que qualquer remoção de vegetação ou obra sem sua autorização é ilegal e deve ser denunciada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Honda levado da garagem de condomínio mexe com os nervos de toda a Península

Quando o carro sobe a garagem e chega ao nível da rua um sensor abre o portão de saída automaticamente, sem que nenhum funcionário tenha tempo de interceptá-lo. Isto já está acontecendo nas portarias 1 e 3 do Saint Barth Club Residènce. Até o sábado de carnaval, a Portaria 2 será alcançada, dentro da mudança do sistema de acesso, a um custo bem salgado, que pretende modernizar e oferecer mais segurança às 330 famílias dos seus 5 blocos.

Com o novo modelo, o acesso deverá ser feito através de digitais previamente cadastradas na administração até 15 de março. As tags serão desativadas, esperando-se, assim, obter um controle maior de quem entra.  Já a saída excluiu todo e qualquer obstáculo a quem vem de carro das garagens subterrâneas.

Foi assim que um New Civic prata blindado foi levado de dentro da garagem do Saint Barth nos primeiros minutos da terça-feira, 10 de fevereiro, num roubo de carro que mexeu com os nervos de toda a Península e suscitou quase cem comentários na página dos "Reais Amigos" do facebook, onde a notícia foi postada pela vítima ao cair da tarde da terça-feira de calor enervante. 
"Vizinhos, atenção! Essa noite meu carro, um New Civic blindado, foi roubado de dentro da garagem subterrânea do meu condomínio - Saint Barth. Já conseguimos vê-lo sendo levado pelas câmeras por volta de 00:30. O condomínio está investigando a entrada e saída de um carro suspeito que saiu no mesmo momento que o nosso. Já fizemos o BO. Não posso descartar a possibilidade de ser algum empregado nosso que pode ter acesso a chave do carro. Mas não acreditamos, já que são pessoas de confiança. Mas o que quero dizer aqui é que desconfiem, não deixem chave de seus carros na roda, para brisa ou com porteiro etc. Meu carro estava trancado e a chave em casa, mas são tantas as possibilidades que nessa hora não sabemos no que pensar. A seguradora Schubb nos informou que está tendo uma onda de assaltos de carro em condomínios na Barra. O meu não foi o primeiro. Muito cuidado, muita atenção! Não estamos protegidos!! Estou cansada do discurso: ainda bem que foi só o carro, poderia ter sido pior. Juro, estou muito cansada. Desculpem o desabafo". 
Contatada por mim, através do Facebook, Amanda Bukahi informou a cor do seu Honda, mas disse não dispor de foto:  "Meu carro é prata, posso procurar foto mas acho que não tenho, infelizmente. Talvez a imagem das câmeras ... Estou mais propensa a achar que foi alguém conhecido, mas não posso afirmar.Ninguém  pode. Pode citar sim, espero que alerte todos sobre mais um perigo que ronda nossa vizinhança".

O Saint Barth tem uma nova empresa de segurança desde novembro. É a quarta no período de 3 anos. E votou uma cota extra em outubro de 2013 de R$ 1 milhão e 200 mil, dos quais metade foi usada na troca de aparelhos da Academia, que tinha apenas 4 anos, a idade da constituição do condomínio.  Outra parte foi destinada a ampliar o número de câmeras de segurança e alguns outros serviços. No final dos 10 meses, sobrava dinheiro da cota extra, algo inédito: R$ 365.443,73, segundo o balancete sintético de dezembro. Isto por que ela foi votada no sopapo sem conhecer previamente os orçamentos, conforme exigências legais.

Como na maioria dos condomínios da Barra (não só da Península) a segurança é a maior preocupação dos moradores. E já se gastou muito nessa rubrica no âmbito da Península sem que os moradores tenham percebido qualquer melhoria. Esse clima vai se agravar ainda mais depois desse  roubo do New Civic de dentro de uma garagem subterrânea de um condomínio que gasta em torno de R$ 100 mil mensais com a empresa de segurança, fora a manutenção do CFTV, escriturada em R$ 31.235,98 no balancete de dezembro.

Segurança seria o grande trunfo de um conjunto de condomínios de acessos controlados. Além disso, notícias como esse roubo acabam pesando negativamente na desvalorização dos imóveis, já tangenciada pela queda do mercado. Mas quem assume certas posições tem uma visão estreita e olhos exclusivamente para mais gastos.

Por suas formações precipitadas com participação de apenas parte dos futuros moradores, muitos condomínios entregaram-se a terceirizações de suas atividades fins. Uns bem intencionados, outros, infelizmente não, tratam grupamentos residenciais como se fossem prédios comerciais ou shoppings e entregam serviços como os de portaria e manutenção a empresas e seus empregados "rotativos", que são inteiramente estranhos à vida "caseira" dos moradores.

É corriqueiro você se dirigir a alguém da portaria e receber a resposta: "desculpe, este é meu primeiro dia aqui".

Nos contratos que representam o dobro do custo por administração direta do pessoal não há responsabilização pela qualidade ou pela ficha de cada um. Aos olhos dos moradores, estaríamos protegidos por pessoal de segurança treinado.  Quando assumiu no Saint Barth, a empresa atual vestiu seus homens de boinas e coturnos: eles pareciam policias militares.  Mas esses são profissionais remunerados como agentes de portaria, com a qualificação equivalente. Não foi à toa que dias depois da mudança, as boinas, os coturnos e  os uniformes "paramilitares" passaram a rarear.

O roubo do New Civic blindado está aí como um corpo de delito de um sistema que não vai melhorar com medidas cosméticas. Sorte que foi realizado com tal facilidade que não causou uma tragédia maior. Registre-se que só se ficou sabendo por que a vítima a divulgou numa página que é acessada por moradores de toda a Península.  O síndico do Saint Barth, Jorge Biásio, postou comentário na página da administração em resposta a alguns questionamentos: "Pessoal, isso é caso de policia e a administração esta tomando as providencia cabíveis. Aproveito para reiterar a importância do recadastramento dos moradores, funcionários, prestadores de serviço, automóveis, etc...."

No mesmo espaço, ele diz: "o sistema de biometria será completo, identificaremos a entrada e saída de pedestres e carros. Até o dia 15/03 tudo estará funcionando". Na verdade, as câmeras registraram a saída do carro roubado, mas aparentemente ele se valeu da abertura automática do portão.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

As águas de fevereiro

Já não se pode levar a sério nem ameaça de ciclone: que o diga o prefeito que se armou para enfrentá-lo


Em clima de declaração de guerra, o prefeito formou a sua trupe de rapazolas sarados às 6 da manhã de uma quinta-feira de sol majestoso e fez um alerta marcial aos quatro ventos: - Estamos em posição de defesa ante a iminência de grandes temporais influenciados por um ciclone subtropical.  Quem está em solo firme, só saia de casa se não puder ficar. Quem mora em área de risco, trate de cair fora antes que o barraco lhe caia na cabeça.

Foi um Deus nos acuda, literalmente, um Deus nos acuda com toda a fé que remove montanhas. Fevereiro de carnaval ia oferecer um ensaio aperitivo pra muito afoito tirar seu cavalinho da chuva. Era o espetáculo do ciclone à brasileira.

Durante todo o 5 de fevereiro deste 2015 não se falou de outra coisa na  terra de São Sebastião: a última grande enxurrada aconteceu em 13 de fevereiro de 1996, com 22 mortos só no primeiro balanço. Mês surpreendente, esse aí.

Mas desta vez a chuva incorporava uma causa justa, a dos sem água do amanhã. Daí, o populacho curioso se comunicava entre si para saber onde cairiam as primeiras gotas do líquido mais precioso do que nunca. Viesse enxurrada, não importava, o prioritário era afastar o fantasma do Cantareira, aquele reservatório que vem tirando a paulicéia desvairada do sério.

Foi por isso que o prefeito deu espetaculosas asas às nuvens iracundas que se espalhavam onde o vento fazia a curva.

- Chove chuva, chove sem parar – oravam nos templos e batiam tambores nos terreiros ensandecidos. Até sua eminência o cardeal ajoelhou-se ante o Cristo Redentor. E quem ajoelha tem de rezar.

Devidamente paramentados, de galochas e salva-vidas, o prefeito e sua trupe de rapazolas sarados atravessaram as ruas mais sujeitas a enchentes ainda no alvorecer. E, como não são de ferro, foram acampar no bem refrigerado centro de operações da Prefeitura, onde se serviam sucos afrodisíacos sob os flashes de todas as câmeras e onde aquele aloprado exibe em todas as reportagens um gravador em que destaca o nome da Super Rádio Tupi num merchandising invejável.

Havia um quê de cacique Cobra Coral no semblante castelão do jovem nascido em 1969, um mês antes do perverso AI-5. Era essa coincidência natalícia que o movia ao protagonizar mais uma pegadinha que levou a multidão perplexa a um estado de tensão compensatório: o brabo era mesmo o medo da água sumir pelo ralo e deixar meio mundo na saia justa de um odor desagradável.

Fazia tanto tempo de sol a pino que todo mundo sonhava com um refresco qualquer, fosse uma neblina suave ou insólitas chuvas torrenciais com relâmpagos e trovoadas. O mar não estava pra peixe ainda mais com a desafinada sinfonia do volume morto de rios tanto antes navegados.

O prefeito e sua trupe de rapazolas sarados contavam os minutos nos dedos numa espera prenhe de emoções circenses. Faziam rodízio no olhar o horizonte perdido, mas nem um sinal da gota serena, enquanto o sol foi cumprindo sua rotina sem notícias do misterioso temporal que mandou todo mundo mais cedo pra casa. Pra não dizer que estava intransigente, o astro-rei deixou cair algumas gotas de orvalho em movimentos esparsos e efêmeros.

Os rapazolas sarados davam nó em pingos d'água para contornar o mico hídrico. Mas os céus continuavam sovinas e indiferentes aos clamores da urbe cristã. Faltava água no céu, tanto como na terra. Ferrou.

O prefeito não se dava por satisfeito. Ao descortinar da noite espessa, porém,  teve que admitir a "barriga" e reverter o discurso: "graças a Deus não veio o temporal esperado" – tentou fazer do limão uma limonada.

A pegadinha teria de deixar sequelas. Quem vai acreditar no prefeito quando ele tentar outra vez espetacularizar o que seria apenas um shakespeariano sonho de uma noite de verão?

O triste em toda essa ópera bufa é saber que o buraco é mais embaixo e expõe a patética possibilidade de um racionamento de água e, por tabela, de energia elétrica?  

O GLOBO de 14 de fevereiro
de 1996 : um dia de caos
Quantas pessoas entre nós, além do atento síndico do Via Privilege,  estão pensando num provável período de vacas magras, sem cacimbas e sem medidas inteligentes de melhor aproveitamento da água e do uso mais racional da energia fornecida, agora, mais do que nunca, a peso de ouro?

Em tempo: a novela não acabou. Quando a gente menos esperar, pode cair um tremendo toró – lembrai-vos que o de 1996 foi num dia 13, e o 13 de 2015 será numa sexta-feira. Já viu, né? Qualquer coisa pode acontecer neste país que em matéria de água as autoridades pertinentes preferem enxugar gelo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mais vida para o que der e vier

Médico vê em ressonância magnética tumor necrosado e me injeta ânimo para retomar a luta com a paixão de sempre

Os meus inimigos internos sofreram mais um golpe, embora não se possa dizer que eles não voltem a atacar no futuro de forma insidiosa, saliência de seus maus hábitos. Como é do conhecimento de todos, conforme minha opção pela transparência sem limites ou exceções, desde setembro de 2013 venho protagonizando uma luta indômita contra um CHC, distorção agressiva, tendo o meu fígado como alvo do conflito.

Mas pelo jeito vou poder festejar minha 72ª primavera, quando março vier, como naquele dia em que, meninote, descobri meus pendores pelo inconformismo diante da injustiça e da vilania.

São os fatos e contra os fatos não há contestação.  Às seis da tarde desta segunda-feira acinzelada, cheguei da "consulta de revisão" com o Dr. Feliciano Azevedo, responsável pelo tratamento do meu câncer hepático pelo método da radiologia intervencionista.

Fui levar o laudo da ressonância magnética do dia 6 de janeiro, assinada pelo Dr. Antônio Eiras, realizada um mês depois da quimioembolização do dia 2 de dezembro – o terceiro combate capitaneado pelo Dr. Feliciano (não confundir com aquele deputado homofóbico).  E SEU DIAGNÓSTICO NÃO PODERIA SER MAIS ANIMADOR.

Com a sensação de mais uma vitória na sua brilhante carreira científica, o professor da UFRJ e introdutor no Rio de Janeiro dessa tecnologia pouco invasiva não escondia a alegria juvenil de um coroa de 62 anos. "É isso mesmo, neste instante não há mais rastros dos tumores".

E enfatizou o laudo do Dr. Antônio Eiras: "A área pós-procedimento localizada em projeção do segmento V apresenta sinal um pouco mais heterogêneo no atual exame, porém mantém-se AVASCULAR, CONFIGURANDO NECROSE PÓS-PROCEDIMENTO sem evidência de tumor residual viável interno".

Está claro para todos nós da família que não estamos diante de favas contadas. Por rotina, em maio, me submeterei a uma nova ressonância (já estou familiarizado com essa máquina e sei que esse acompanhamento será por pelo menos 5 anos).

Mais uma coisa é certa: depois dessa, estou voltando à plena normalidade de minha inquietação atávica e estarei na linha de frente de onde precisarem de mim, nas plagas desse país de encantos e desencantos,  ou aqui mesmo, no meu mundo domiciliar à beira da lagoa da Tijuca.

Pelo que conversamos, agora não tem sentido abster-me de fazer meus gols nas peladas dos veteranos, às terças-feiras na Península. Portando, os craques maiores de 40 que me esperem. Estarei na banheira, como sempre durante os últimos 6 anos. E vou esperar receber bolas redondas, como nos bons tempos.

O plus dessa nova consulta foi que agora ele me recebeu no seu novo consultório de um complexo hospitalar ainda pouco conhecido, na Rua Jorge Curi, entrada pela Av. Airton Senna, colado ao Bosque da Barra. Na outras vezes, tinha de ir até o morro da João Borges, na Gávea onde fica a Casa de Saúde São Vicente. Além de perto, parando na própria rua, a patroa não precisou pagar estacionamento, uma despesa capaz de agravar nossa doença nesse ambiente de impune venda casada dos pátios dos hospitais.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Gerador agora ou agora

Crise hídrica no Sudeste faz acender de novo a luz vermelha nos condomínios
Pode parecer exagero, mas a configuração dos prédios da Península, com seus gabaritos de 16 andares, torna a existência de geradores como equipamentos básicos do seu funcionamento. Essa leitura foi feita por algumas construtoras em alguns empreendimentos, mas desprezada em outros: a RJZ Cyrela, por exemplo, construiu dois dos maiores residenciais na mesma época e com os mesmos conceitos: no entanto, enquanto o Saint Martin, de 550 apartamentos, foi entregue com 3 geradores que cobrem todo o condomínio, o Saint Barth, de 330, ganhou apenas um gerador, destinado a alguns fins, como a adega, mas seus 33 elevadores mantêm os moradores presos a cada apagão, deixando-os na dependência de resgates muitas vezes demorados.

Ninguém tem informação precisa sobre quais os condomínios que, como o Saint Barth, não contam com geradores. Mas vários deles foram à luta e instalaram esses equipamentos a custos razoáveis, como aconteceu no Quintas da Península e no Aquarela. Neste, um gerador "hospitalar" (de ruído reduzido) que atende com eficiência aos seus 3 blocos foi instalado a um custo total de R$ 140.000,00.
A implantação dos geradores voltou a povoar as preocupações dos moradores da Península com o insistente noticiário sobre a crise hídrica no sudeste do país. Enquanto em São Paulo a escassez de água nos reservatórios já está provocando racionamento em várias regiões, no Rio, um dos seus 4 reservatórios, o de Paraibuna, já opera com o "volume morto".
No nosso Estado, a diminuição das reservas de água se reflete mais diretamente no sistema de energia elétrica. Isso quer dizer que as possibilidades de apagões são maiores.
Independente dessas informações pontuais, o país já foi surpreendido na segunda-feira, dia 19, por um apagão que causou transtornos principalmente no Sudeste. E os temores de uma crise mais grave aumentaram com as declarações do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, afirmando que o sistema entra em colapso se os níveis de todos os reservatórios chegarem a 10% - atualmente, fora São Paulo e o Paraibuna, estão em média em 17%.
Isso tudo impõe aos condomínios da Península a adoção de uma estratégia tanto em relação aos apagões de luz como à falta d'água. Essa semana também houve um corte por 48 horas. Quem tinha uma boa cisterna não sentiu seus efeitos. Mas nem todos os condomínios da Península dispõem de seus próprios reservatórios. No Saint Barth, há um sistema de canalização das águas das chuvas, como me informou um trabalhador da manutenção. Como isso funciona poucos moradores sabem.
O que parece claro é que a falta de visão e de competência de quem está à frente de vários condomínios tem levado a uma omissão deliberada sobre itens que estão diretamente relacionados com a nossa segurança e a nossa qualidade de vida.
Mas a responsabilidade maior é dos moradores, que têm uma participação mínima nas assembleias e não cobram informações de suas administrações, geralmente inchadas de pessoal e muito onerosas. O mais dramático é que a quase totalidade dos serviços é terceirizada, produzindo empregados em serviços diretos, como de portaria, que não conhecem os moradores por que têm sempre "pouco tempo de casa".

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Para quem não dorme no ponto

Condomínios que estavam no prazo de 5 anos e não fizeram autovistoria foram notificados pela Prefeitura


"O brasileiro só fecha a porta depois de arrombada" – não há ditado mais atual e mais grave.  Que se aplica a tudo, ressaltando a miopia generalizada na gestão das grandes cidades e de seus grupamentos residenciais.

Por mais de uma vez, ao longo da existência do nosso CORREIO DA PENÍNSULA, tenho alertado para a necessidade de rever procedimentos aqui, nesta célula urbana concebida para ser o mais completo projeto de moradia e convívio da cidade do Rio de Janeiro.

Atitudes primárias de vizinhos que se posicionaram à frente de alguns condomínios e da nossa ASSAPE têm impedido uma reflexão consistente e honesta a respeito do grande desafio de transformar o idealizado em real. Isto é: não basta a fértil imaginação dos empreendedores da Península, é preciso materializar e preencher com conteúdo o que foi esboçado na sua origem.

O conceito básico do "modo Península de conviver" é o entrelaçamento. É a soma de informações, a troca de experiências, o estímulo à aproximação através dos equipamentos e serviços existentes e por serem introduzidos.

No entanto, fora de práticas esportivas pontuais, nada se faz nesse sentido. Antes, pelo contrário. Já existem sinais de rivalidades cultivadas, não apenas entre condomínios, mas até mesmo entre blocos de um mesmo condomínio, onde construtoras fizeram projetos diferenciados.

Preocupações pétreas como a segurança não são compartilhadas entre a ASSAPE e os condomínios e entre estes, em meio a uma variedade de "empresas de segurança" que acabam dando as cartas conforme seus interesses: não é de hoje que se reclama o entrosamento entre as portarias de acesso da Península e às dos condomínios.  No entanto, é cada um por si, até hoje.

Mas não é só isso. Poucos sabem, mas alguns condomínios foram surpreendidos pela fiscalização da Prefeitura por não terem providenciado o que se chamou de "autovistoria", conforme a Lei Complementar 126/13 (municipal) e a Lei Estadual 6400/13. E foram notificados a obras de emergência determinadas pelos fiscais.

Faltou informação a esses condomínios e iniciativa nesse sentido da ASSAPE. A legislação pertinente (embora recente) é muito clara: todos os condomínios, com mais de 5 anos de construção, estão obrigados à autovistoria. Antes de completar 5 anos de conclusão da obra, no 4º ano, o síndico do condomínio deverá exigir da incorporadora, construtora ou empreiteira, laudos de vistoria – art. 618 do Código Civil, reportado no parágrafo 2º, do art. 1º da Lei 6400/13;

Embora seja este o caso de vários condomínios, não se sabe de iniciativa a respeito.  Depois do quinto ano, as construtoras ficam desobrigadas e a falta de iniciativa do síndico poderá levá-lo a responder judicialmente por isso.

Minha intenção é transmitir nas próximas matérias preocupações que ajudem a repensar nossa Península na melhor direção. Em março, teremos renovação das administrações dos condomínios e, em abril, da ASSAPE. Se há, felizmente, alguns condomínios com administrações ligadas, não é o caso da maioria. Daí as nossas ponderações. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

"Rehumanizar" a natureza humana

Restabelecer nossos elos, eis um sonho possível
Nos tempos idos, a vizinhança era a própria família. A grande cidade com sua  engenharia de espaços foi desfigurando essa relação e afastando uns dos outros. O que era aconchego foi resvalando para o seu contrário. Isso não vai acabar bem.
Tentar resgatar a ideia de que o vizinho é o seu amigo mais próximo pode ser uma grande contribuição deste blog.

Daí a reflexão que se segue. Clique na imagem e conheça nossa preocupação sobre a nossa natureza humana. Tudo para que cada um  liberte o ser humano que ainda há em nós.


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

As alvíssaras do meu terceiro turno

Nesta crônica de mim mesmo o relato de uma odisseia emblemática. Por ora, tudo bem até o ano que vem

Os nódulos que apareceram na ressonância (acima) sofrem combate (abaixo)

video
Passadas 18 horas dos 90 minutos cravados em que a equipe do professor Feliciano Azevedo deu combate à nova investida dos tumores malignos alojados em meu fígado, já em casa e ligado em todas as expressões da vida – do condomínio domiciliar ao grande cenário nacional –, debruço-me em mais essa crônica de mim mesmo para dizer, no seu introito, que a "boca de urna" desse terceiro turno saiu melhor do que as expectativas, apesar das margens de erros. O veredicto, porém, só na alvorada do ano vindouro, quando submeter-me à prova dos nove daquele tubo barulhento em que enfiamos o corpo até o pescoço.  


 Retomo a parábola oncológica por alguns impulsos: o primeiro, as centenas de mensagens por todos os meios fluentes através da web, todas de arrepiar a pele sensível e irrigar o coração bucólico; algumas marcantes por sinalizadores comoventes.

À minha catarse de terça-feira, seguiram-se fartas manifestações de energia positiva, entre as quais destacaria as de dois homens públicos de minha geração, Cristovam Buarque, que faz 71 anos em 24 de fevereiro, e Roberto Amaral, que completa 75 agora em 24 de dezembro, passageiros dos mesmos sonhos, entre trancos e barrancos.

"Caro Pedro Porfírio, neste terceiro turno estarei votando com o mesmo fervor do primeiro e segundo,
Por sua vitória.
Abraço
Cristovam"

"Porfírio
Você é o que posso chamar de UM Homem. Um grande homem. Eu me orgulho de você. Voltaremos à Praça do Ferreira.
Até lá.
Roberto Amaral"

Segundo, a compreensão da natureza humana cada dia mais aguda, sem essa do Gabriel Garcia Marques dizer que a sabedoria só nos chega quando já não serve para nada. Ao invés, minha crônica – a exposição em relevo indiscreto do meu cérebro nervoso – é um fragmento letivo sobre uma possibilidade que a todos toca por instintos conscientes e inconscientes.

Terceiro, ao exibir uma situação tão íntima, como já ressaltei outro dia,  procuro desmitificar traumas atávicos e colaborar na distensão sobre o existencial de cada um, distante do sensacionalismo que dá sortida audiência a programas televisivos, mas explícito numa proposição audaciosa em nosso pequeno círculo. É a oferta de um espelho a muitos que se imaginam fora de qualquer foco mortífero imediato e que nem sempre estão preparados para os caprichos pérfidos do destino.

O que está me acontecendo é o mais incisivo conflito do ser ou não ser, aceitar ou não aceitar, acreditar ou não acreditar, pressionado por um turbilhão de alto teor explosivo. Situação análoga jamais experimentei, mesmo nos idos tenebrosos em que ofereci minha juventude aos carrascos.

Que paradoxo. Quando tinha uma vida longa pela frente, gozava fervorosamente no supor da cruz reservada precocemente aos intimoratos d'antão.  Já nestes dias senis, ao contrário, não quero nem ouvir falar em fechar os olhos. Antes, quero tê-los cada vez mais arregalados, na suposição da minha multiplicadora capacidade de repasse do conhecimento com valores agregados.

Foi o que me veio à cabeça ao sair de casa às 13 horas desta terça-feira, 2, iniciando uma longa marcha pelas ruas empanturradas da Barra da Tijuca, passando sob o populoso morro da Rocinha, em direção à Casa de Saúde São José, obra da congregação das irmãs de Santa Catarina, que em 1923 se instalaram por ali, na fronteira de Botafogo com Humaitá.

Já era a terceira vez que ia ao simpático hospital, se é que se pode ter como simpático um mero nosocômio de discretas, mas prevalecentes saliências mercantis. O ramo hoje está no ápice da pirâmide negocial e atrai grandes investidores, como o Banco Pactual, que controla a pomposa rede D'Or.

Passei a lidar como protagonista no enfrentamento de um CHC - Carcinoma Hepatocelular – ainda no seu estágio precoce, com 3,8 cm. Na primeira quimioembolização, ele diminuiu para 1 cm: na ablação, praticamente sumiu. No entanto, recompôs suas forças malignas e reapareceu sob forma de pequenos nódulos próximos ao local onde havia sofrido os ataques anteriores.

Foi por isso que voltei à sala de hemodinâmica da citada Casa de Saúde São José, escoltado pela equipe do professor cinquentão Feliciano Azevedo, pioneiro na introdução dessa técnica no Rio de Janeiro.  

Por motivos incorporados à civilização brasileira a nova quimioembolização, realizada com anestesia local e sedação, começou com atraso de duas horas. Essa maravilha do mundo moderno é algo tão recente que não há tais ainda raros especialistas cadastrados na Sul América, plano de saúde do Sindicato dos Jornalistas para o qual contribuo há quase 20 anos. 

quimioembolização consiste na introdução de um cateter na virilha que alcança o tumor através de partículas com medicações quimioterápicas no interior do vaso sanguíneo afetado em alta concentração. Por sua ação direta, usa apenas 10% da carga de uma quimioterapia tradicional, evitando terríveis efeitos colaterais, pois não atinge as células saudáveis. As medicações concentram-se no tumor e entram no interior de suas células, enquanto as partículas obstruem sua nutrição sanguínea, resultando na morte das células tumorais. Num rápido passar dos temos, o tumor regride.

Não é o único procedimento da radiologia intervencionista. No segundo, em maio passado, submeti-me a uma ablação por radiofrequência, com uma corrente elétrica transmitida por uma agulha que provoca aquecimento e uma lesão térmica no tumor.

Sabendo dessas virtudes de cor e salteado tinha por mim que o acompanhamento por ressonância magnética seria mamão com açúcar. Já havia descoberto um aparelho "de amplo espaço" que recebia minha barriga protuberante sem sufocar e estes exames estavam no preço, cobertos pelo tal plano. Daí a minha insatisfação com a volta aos holofotes do hospital, como se começando tudo outra vez.

No entanto, fora do atraso e da má vontade dos técnicos de enfermagem que atenderam na noite de anteontem para ontem, posso dizer que psicologicamente essa reentre foi compensadora.  O organismo nunca reagiu tão bem, configurando uma "boca de urna favorável" e presumindo um resultado positivo na hora da checagem por imagens.

O conjunto das mensagens é confortante porque consolida a idéia de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, isto é, trocando em miúdos, que opções políticas e afeto podem ocupar regiões autônomas em nossos cérebros.

Resta saber se continuarei me mortificando diante do noticiário sepulcral no âmbito geral ou se recorrerei a um equipamento de anti-espanto de longo alcance, nessa eternizada prática generalizada de dar tempo ao tempo, mesmo esse tempo cinza que manhã não faz. 

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