quinta-feira, 2 de maio de 2013

Tinha um gambá no elevador



Surpreendido com a inesperada companhia, o morador preferiu fotografá-la e, pelo sim, pelo não, mudou o itinerário, mas esse episódio teve final feliz

Ildemir Freire, engenheiro, 50 anos, já estava atrasado para o trabalho e ansioso pela  chegada do elevador. É sempre assim: quando estamos com pressa, as coisas parecem que andam mais devagar, quase parando. E o feriado de quarta-feira acabou pesando  na agenda laboral de todos nós. Ele que o diga.

Mal o elevador chegou, ele deu um pulo para dentro com a esperança de que o dito meio de transporte voltaria a descer rapidinho. Foi quando aconteceu o inesperado: quietinho, sem saber também por que fora parar ali, tinha um gambá no elevador.

O quê? Por essa, ele, o morador, não esperava. Sabia que neste habitat quase silvestre era comum privar de tal companhia, mas não no sobe e desce desse equipamento cada vez mais fechado.

Isto aqui era antes só deles, pensou. Nós é que estávamos como invasores. Mas por que no elevador, com aquela cara assustada, logo na hora do profissional zeloso correr para pegar o carro, sabendo que às oito da manhã os gargalos no trânsito são impiedosos?

Vou ou não vou? Tinha que decidir rápido. Qual seria a reação do onívoro, que podia ter ido ali para matar a fome?

Onívoro? Sim, que se alimenta de carne e vegetal, produtos que não se acham num elevador.
Ildemir Freire não perdeu a tranquilidade, embora, como tenha pensado, “não é todo dia que a gente encontra um gambá no elevador, logo no próprio andar, e quando o tempo urge”.
A primeira iniciava foi de documentar a cena. Por que em situações como essa sempre vai aparecer um engraçadinho pra duvidar. Pra comparar sua narrativa às mirabolantes e inacreditáveis estórias de pescadores.

Com esses celulares que são mais eficientes com fotografia do que para fazer ligação não tem tempo ruim: esclareça-se, não tem tempo ruim para fotografar um gambá num elevador.  Esclareça-se mais: isso por que o seu não deve ser um Black Berry, como o meu, que só me dá vexame nessa função documental.

Decisão tomada, conforme sua própria engenharia de situações, fez o flagrante, sem qualquer objeção do bichinho. Bichinho? Estabeleçamos que sim. Em geral, não tem mais de 45 centímetros e o da foto ainda devia estar em crescimento.

Ato contínuo,  apertou o botão do subsolo, abandonou o elevador onde estava o gambá e  entrou no outro, imaginando um reencontro lá embaixo.  Tinha naquele momento uma única preocupação: que o passageiro insólito chegasse são e salvo até a garagem, onde deixaria a porta aberta para que ele escapasse ou avisaria ao pessoal da segurança para as providências cabíveis no sentido de devolver o quase novo amigo ao mundo verde das cercanias.
“Acho muito importante mantermos a calma quando deparamos com uma situação como esta, tentar minimizar ao máximo o stress com o animal e lutarmos para devolvê-lo ao habitat o mais rápido possível”  - declarou Ildemir Freire na entrevista exclusiva ao CORREIO DA PENÍNSULA.
Felizmente, ao contrário do que aconteceu com o meliante que arrombou o apartamento no sexto andar do mesmo condomínio, o pessoal da segurança já havia detectado pelas câmeras a presença desse estranho visitante.

“Nesse caso – testemunha Freire – os seguranças agiram com grande competência. Já estavam esperando o elevador invadido com as instruções sobre o procedimento correto”. Como se tivessem feito pós-graduação no trato com gambás e assemelhados.

Um deles tinha um pano preto na mão e envolveu o gambá com tal maestria e rapidez que poucos ficaram sabendo do acontecido.  Em minutos, refeito do próprio susto, o onívoro foi-se em desembalada carreira para onde poderia encontrar algum alimento matinal.

Naquelas circunstâncias, não dava para identificar, nem parecia relevante, se o visitante era macho ou fêmea, por que um dos dois haveria de ser, já que não há notícia de terceiro sexo na espécie.

A gambá carrega até 20 filhotes na bolsa
Se fosse fêmea, valia uma inspeção posterior no elevador. Quando produz os embriões minúsculos, que podem chegar a vinte,  a gambá costuma carregá-los numa dobra chamada de marsúpio junto ao mamilo,  por um bom período.

Como não sou do ramo, mas sou jornalista – um especialista em assuntos gerais – imagino que essa preocupação é meramente alarmista. Aquele ou aquela gambá devia estar sozinha no mundo, com problema de relacionamento afetivo, até por que, como se lê, oito horas da manhã não é hora da sua turma passear ao léu.

Narrado o fato com as tinturas recomendadas, o CORREIO cumpre o prazeroso dever de informar que o episódio teve final feliz exatamente por que a calma desceu sobre o nosso querido vizinho. Por menos disso, já vi homem ter chilique e mulher desmaiar, deixando o bicho perplexo e  em palpos de aranha.

Se tem gente que não pode ver uma barata, imagine um solitário gambá num espaço tão cubicular. Como aconteceu nesse condomínio, pode acontecer em outros. No meu mesmo, eles ainda não quiserem conhecer os elevadores, que vivem enguiçando, mas costumam passear por nossas relvas e jardins.
Só não vou dizer onde aconteceu essa surpresa matinal para não encarnarem nos moradores desse condomínio.  Que é aliás, um dos mais charmosos da nossa Península.


Caranguejo na recepção do condomínio

Ao ler a matéria com a foto do gambá,  Gilson Marques, outro morador da Península, comentou que também se deparou dentro do seu condomínio com visitantes inesperados. O que mais lhe chamou a atenção foi um caranguejo avantajado, mais do dobro desses que a gente costuma cozinhar vivo, e outra atitude não lhe ocorreu senão valer-se da capacidade fotográfica do seu celular.

"Pedro,
Acompanho sempre os seus muito bem escritos textos e neste caso especifico, posso te dizer que este não foi o único bicho que tive a oportunidade de cruzar no caminho.

No meu condomínio já me deparei com inúmeros gambás, cobras e o ultimo foi um caranguejo ENORME, como se pode ver na foto anexa. Ele estava passeando na recepção do prédio.

Nunca vi um bicho tão grande".

Ao divulgar a foto igualmente surpreendente, o CORREIO quer tão somente lembrar que o convívio com uma fauna incomum faz parte da própria natureza da Península e que, em qualquer situação, a atitude mais sensata é aceitar a companhia, cuidando para que essa coexistência pacífica seja nossa despojada contribuição para a defesa do nosso ecossistema.

Isso deve acontecer mesmo em se tratando de um caranguejo, que,  como cearense da gema, compro na feira do Rio das Pedras e trago vivo, em pencas, para a panela fervente.

Caranguejo como esse que frequenta solitariamente a recepção de um condomínio à beira da lagoa é protegido pelo nosso estatuto da preservação e provavelmente não seria palatável, de onde tentar capturá-lo para fins alimentícios não é coisa de bom alvitre.

Fico o registro para que você vá se acostumando numa boa á vizinhança de cobras e lagartos. E de gambás, caranguejos e outros antigos donos do pedaço.

A capivara que eu não fotografei

Aliás, faz uns dois meses, fiquei sabendo que abateram a tiros uma capivara. Não escrevi a respeito por que entrei em contato por e-mail com o biólogo Mário Moscateli, autor da denúncia e contratado como consultor da Assape (ou da Carvalho) e até hoje estou esperando suas respostas às minhas perguntas.

Eu mesmo, aliás, numa noite do último inverno, deparei-me com uma capivara na Avenida dos Flamboyants, perto do local onde havia estacionado meu carro para a costumeira pelada (de futebol, esclareça-se) dos coroas, nas terças-feiras.  Estava sem máquina e ainda fiquei na dúvida atroz sobre como chegar ao veículo, pois tinha uma capivara no caminho.

Fui em casa, peguei a máquina, ela ficou esperando por um bom tempo, mas quando já estava preparando para o feito fotográfico, um tanto nervoso, a capivara decidiu ir embora, atravessando a rua lentamente.  Os seguranças que apareceram disseram que era comum ela vir à noite  para a rua.  Passei a usar a máquina a tiracolo, porém nunca mais a vi.

Com a notícia de que haviam abatido uma a tiro, fiquei pensando será que a vítima era aquela que atravessou no meu caminho?

Fosse ou não fosse, ainda espero pessoalmente fotografar uma capivara ou outro animal incomum. Pois, afinal das contas, eu é que sou o jornalista.

5 comentários:

  1. Morei no Quintas da Península e já me deparei com um gambá na porta do meu carro na garagem.
    Todos os condomínios tem gambá.

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  2. Também é muito comum o desfile de gambás no Saint Barth, onde moro. Até aí tudo bem. Mas se um deles aparecer num elevador, aí eu vou ter um troço, não tem jeito.

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  3. Também já vi gambás no térreo e na garagem de subsolo do meu edifício, que fica colado à trilha. Aliás, é provável que esse tenha sido o caminho do bichinho assustado da foto: trilha, jardim do prédio, ventilação da garagem do subsolo e, enfim, o elevador.

    E, correndo pela Península à noite, também já me assustei com uma (enorme) capivara na calçada junto à trilha. Ela nem me deu bola, apesar de eu passar a 3 metros dela.

    Coisas de quem mora e valoriza a natureza. Eu acho um barato! :)

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  4. Outro ponto importante é não fazer nenhum mau a estes bichinhos, que tem uma fisionomia estranha mais são inofensivos, estes são os principais predadores das cobras no eco sistema da Península. Melhor cuidar bem deles para não encontrar algo pior no elevador...

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  5. Sou moradora do Saint Barth e de minha janela da área de serviço, já observei um gambá desfilando na área aquática de nosso condomínio, e estava bem a vontade. Meu marido também em uma de suas caminhadas por volta das 5:30 da manhã também teve o prazer de conhecer a famosa capivara.
    Viva a "NATUREZA"

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