segunda-feira, 10 de junho de 2013

O caos mora ao lado

Crônica de uma sexta-feira de engarrafamentos no entorno da Península e em toda a Barra da Tijuca
A cada bebê que nasce no Brasil dois carros entram em circulação. Ainda bem que a gente vive mais do que os automóveis, que aqui duram a metade do tempo na Europa. Ufa!
CLIQUE NA FOTO PARA VER O VÍDEO SOBRE O CAOS
 NO TRÂNSITO NO ENTORNO DA PENÍNSULA
Achei esses dados comparativos enquanto matutava sobre o caos no trânsito que criou uma cortina de fumaça à saída da Península, sempre ao cair da tarde, até quando começa a novela Amor à Vida, título que também se aplica sob medida a quem sonhou com o cotidiano paradisíaco neste recanto que tem condomínios com nomes de dar água na boca, como Saint Barth, San Martin, Paradiso, Mondrian, Gaugin, Bernini, Mandarin, Royal Green, entre outros, e ainda esbanja o verde nos parques públicos de uso exclusivo.

E fiquei a pensar também no que deve vir à  sua cabeça ao constatar que ir de carro ao Barra Shopping  quase à meia luz tornou-se uma aventura que pode demorar até uma hora – mais do que se fosse a pé, devagar, quase parando.

Foi o que aconteceu na sexta-feira, 7 de junho de 2013, sob regência  do leão, tido e havido como o signo da vitalidade. Eu estava no meio daquele caos e até aos céus recorri, através da astróloga Isabel Muller: “Até o dia 20, com a passagem do Sol, regente leonino, pelo signo de Gêmeos, o foco estará nas amizades, nos projetos envolvendo grupos, no contato com empresas, na diversificação de interesses e de atividades, tendo como pano de fundo a inteligência e a interatividade”.

Buscava estrelas no firmamento quando um motoqueiro aloprado tirou um fino no espelho do meu charmoso JAC-2. Valha-me Deus. Meu cérebro nervoso revolveu notícias recentes: os assaltos a motos nos engarrafamentos estão entrando para a crônica macabra do dia-a-dia urbano, até mesmo em plena luz do dia, de quando em vez, aqui mesmo na Barra da Tijuca.

Eu não mereço, garanto. Mas João Cabral de Melo Neto, o poeta de  Morte e Vida Severina, não podia imaginar que seu nome seria de uma rua enganosa: tinha tudo para consagrar o bucólico dos arbustos palmeirais, mas, quem diria, virou um caldeirão de ansiedades, eis que sem beiras, nem testemunhas oculares, pode entrar a qualquer momento na agenda criminosa dos bandidos motoqueiros.

Cá pra nós, alguém podia imaginar o trânsito caótico por ali? Vá lá.  O número de carros particulares em 2020 será quase o dobro do atual no Estado do Rio, segundo o professor Paulo Cezar Ribeiro, da COPPE/UFRJ. Dos 1 milhão 867 mil automóveis emplacados hoje, chegaremos a 3 milhões mole, mole, quando a nova década vier.

Já pensou? Vai ser a festa do CO2,  do efeito estufa, do mais impune genocídio ambiental. Como a gente, aqui desta península singular, fica nisso tudo?

A coisa ficou tão feia que as distâncias já não são mais contabilizadas em quilômetros, mas em  horas.
 
Naquela mesma sexta-feira, no meio da tarde, já havia passado por sufoco similar, indo ao Infonorte, na Avenida Dom Helder Câmara (que Deus o tenha) pela cinzenta Linha Amarela.

Parecia castigo. Este idoso orgulhoso dos 70, no gozo ainda possível de uma aposentadoria razoável, tinha outro dia e outra hora para evitar o périplo conturbado. Mas logo na sexta, que não era 13,  pifou a placa-mãe do computador da patroa, por onde ela faz os pagamentos usando naturalmente a minha conta bancária.   

E lá  no Infonorte tem um cara que é vapt vupt, mediante pagamento em dinheiro vivo, é claro.

Também pudera. No final de janeiro havia lido (e guardado nos mês arquivos implacáveis) excelente matéria de Cláudia Motta em O GLOBO:

“Entre os Censos de 2000 e 2010, a população brasileira aumentou 20,9 milhões (12,3%), enquanto a frota no país cresceu 41,8 milhões (122%) entre 2002 e 2012. Isto significa que circulam nas ruas dois novos veículos para cada bebê nascido”.

E mais:

De acordo com o relatório de qualidade do ar do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), publicado em 2009, as fontes móveis, sobretudo os carros, são responsáveis por 77% do total de poluentes emitidos para a atmosfera.

“Entre os principais poluentes associados aos veículos estão: monóxido de carbono (afeta a capacidade do sangue de transportar oxigênio; o alto índice de CO tem sido apontado como causa adicional de acidentes de trânsito), hidrocarbonetos (podem até provocar câncer) e óxidos de nitrogênio (estão associados à produção de ozônio). Além do dióxido de nitrogênio (é um poderoso irritante), óxidos de enxofre (causa problemas respiratórios) e material particulado (agravam o efeito de outras substâncias), de acordo com os parâmetros adotados pelo Inea”.

Segundo Cláudia Motta, o geógrafo Lucas Pereira, da ONG Iniciativa Verde, contabilizou 44 milhões 286 mil 294 toneladas de CO² emitidos em 2012 na atmosfera pátria. Para você ter uma idéia do que isso significa confira:

 Para compensar o que a frota nacional de carros emite de gases do efeito estufa em apenas um ano seria necessário o plantio de 233 milhões de árvores. A floresta ocuparia uma área equivalente a 200 mil campos de futebol, ainda de acordo com as estimativas do especialista da Iniciativa Verde.
A matéria é redondinha e devia ser lida por todos os que resistem na Península à conquista de um sistema de ônibus para o transporte em grupo para o Centro. 


Esta é uma das faixas seletivas só para ônibus fretados em Nova York
Tanto que cita  Luiz Ozorio, professor do Ibmec, afirmando que Nova York, (onde existem faixas seletivas para ônibus fretados) permite que  seus moradores vençam mais de 90 quilômetros em cerca de uma hora; no Brasil, quem mora a mais de 30 quilômetros do Centro perde cerca de duas horas. E isso se reflete nos preços dos imóveis, segundo Ozorio, que é professor de Finanças.


Poderia ficar falando mais, por que uma conversa puxa outra, mas tenho que respeitar seu tempo. Você certamente não é um velho e inquieto aposentado, como eu.

9 comentários:

  1. Prezar Porfirio gostaria de fazer algumas considerações. Tudo o que você falou está muito bem fundamentado, só tenho certas dificuldades em lembrar a % de culpa dos veículos nas emissões de CO. No Rio penso que além da culpa dos automóveis temos a total carência de investimentos públicos em novas vias, pontes, viadutos(pelo contato estão sendo demolidos), mergulhoes.E o transporte público atende a lógica de saturação que otimiza apenas os ganhos das concessionárias e se constituem em verdadeiros vagões de transporte de gado. Muito se pode melhorar na Barra por exemplo. Se me encontrasse com você rapidamente poderia desenhar no mapa alternativas rápidas e baratas para resolver os gargalos do bairro.Tudo isso sem esquecer que a prioridade é viabilizar o Metro e depois os coletivos de boa qualidade. No Rio Até a lógica do trânsito está equivocada, e a fiscalização é fraca e não educa nem constrange os infratores. Hoje o Rio é seguramente o pior lugar do Brasil em termos de trânsito. Mas e daí? Afinal o Cabral e Paes só andam de helicóptero, isso quando não estão em Paris.

    ResponderExcluir
  2. Caro Porfírio,

    Excelente matéria!

    Sexta eu e meu marido levamos 50 minutos do Península até a entrada do Via Parque e fiquei imaginado que quando tivermos o condomínio do Eike( atual Terra Encantada) e ainda o Península 2 ( aquele que tem uma entrada com cara de casa da família Adams), como conseguiremos sair de casa....???!!!

    Acho que só se tivermos uma outra saída( isso seria uma boa solução) .....um ponte ligando a Península ao outro lado.. um teleférico estilo morro do alemão também não seria uma má ideia ( isso é brincadeira..)... Até uma passarela ligando a saída da Balsa ao BarraShopping já ajudaria bastante pois atravessar aquela rua atrás do BarraShopping, dependendo do horário, é uma aventura de extrema coragem...

    E isso tudo ficamos discutindo/elucubrando eu e meu marido enquanto víamos pessoas andando por nós e chegando mais rápido a pé....rsrsrs

    Só rindo pra não chorar ....

    Por essa e por outras que sou favorável a uma mudança nos transportes dentro do Península( que tiraria um sensível número de carros das ruas!), mas também concordo com quem fez um comentário aqui no seu blog dizendo que temos que nos unir para exigir da Prefeitura soluções adequadas para o Transporte aqui na Barra: metrô até a Alvorada seria uma delas... ( gostaria de ouvir as soluções do amigo que fez o post acima, fica a dica para uma segunda matéria...)

    Pois, do jeito que está, morar no "Paraíso-Península" só será bom para quem não precisa se deslocar para o lado de fora!

    Claudia Martins

    ResponderExcluir
  3. Verônica Albuquerque10 de junho de 2013 14:23

    Bom dia, Porfírio! Sempre leio seus textos e gosto muito!
    Excelente colocação sobre o problema do trânsito caótico que temos enfrentando, que além de acabar com a nossa paciência, acaba com o nosso meio ambiente!
    Parabéns pela sua abordagem do tema!
    Att,
    Verônica (via e-email)

    ResponderExcluir
  4. Diamantino Ribeiro Salgado10 de junho de 2013 14:26

    Fala Pedro
    Tenho gostado mto da seleção dos temas ppalmente aos relacionados ao transporte. Como vc nao preciso de transporte para o centro mas nao me oponho ao projeto se o custo nao for excessivo e atender demanda de todos. Do modo que foi construído como vc bem relatou há muitos problemas. Por exemplo eu usaria para ir ao fundão mas o ônibus so passa na ida, mas nao na volta - qual o racional? Ou tem o trajeto ou nao tem...nao há sentido servir a metade. Ainda o custo parece alto. Pq nao copiar o modelo integralmente de um lugar q funciona bem como abm pex.
    Nao consegui postar no blog pelo cel...
    Abs
    DS

    Enviado via iPhone (para peninsula@pedroporfirio.com)

    ResponderExcluir

Este espaço é livre para seu comentário. Saiba usá-lo evitando palavras agressivas e ataques pessoais ou inconvenientes.

Web Analytics