quarta-feira, 10 de julho de 2013

Em busca da lucidez e do equilíbrio

Se é patente a insatisfação, é também necessário organizar e definir os pleitos dos descontentes

“Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público”.
 Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá.


Se há um produto em falta entre nós esse é a lucidez. Quando digo entre nós, falo de tudo, de toda uma civilização enroscada na paranoia, na incerteza e na ignorância.

A insensatez venceu, diria num repente de profundo pessimismo. As vidas humanas fragmentaram-se no firmamento dos impulsos individuais e no horizonte dos objetivos pessoais mediocrizados.  

Banalizaram-se os confrontos em todas as suas formas e dimensões. Ainda existe, mas é cada vez mais raro, o conceito celular do  arcabouço familiar e comunitário.

A relação cosmopolita enredou-se em seus próprios avanços. As pessoas perderam o hábito de racionar, não gostam de ouvir e caíram  na grande cilada de que o mundo gira em torno delas, como se tudo o o mais acabasse no seu último suspiro.

Os seres humanos elevaram o sentimento da rivalidade e dos conflitos pernósticos ao seu maior paroxismo. A intransigência campeia como elemento de auto-afirmação e de demonstração de força.

Uma lástima que remete a uma analogia deprimente: nos últimos dois anos registram-se mais divórcios do que casamentos no Brasil.

Permito-me mais uma vez principiar meu escrito por  amargas constatações  por que não dá para opinar sobre o bonde andando. É preciso retornar ao começo da linha. O que está acontecendo na Península vem de longe, está no psiquismo de uma sociedade competitiva e desumanizada.

Uma vizinhança fracionada e ensimesmada

O que seria o cerne de uma suave modalidade de convívio, um ponto de partida para a desconstrução de terríveis hábitos litigantes, deu com a cara na parede. Há um fracionamento saliente e brutal na vizinhança, cuja maior responsabilidade é o autoritarismo que permeia a governança local.

Esse conflito no caso dos transportes é apenas a ponta do iceberg de um modo de vida amesquinhado, remontando até os audaciosos diagnósticos de William Reich, o inquieto discípulo de Freud, que ousou apontar o falso orgasmo como condimento da falência drástica do sentimento de  felicidade.

Nesses comentários postos aqui num clima de absoluta beligerância, alimentados pela  arrogância compensatória e pelo cultivo de ódios pessoais, temos a aquarela desbotada que a miopia incurável, o pandemônio e a incultura primária produzem  numa exibição exacerbada de um jogo de poder caricato e inconsistente.

Uma cidade ameaçada pelo caos

Um certo leitor, em tom de ironia, ofereceu um link de um empreendimento do programa minha casa minha vida em Santo Cristo como o destino mais adequado para uma infinidade de moradores cujo pleito, dar melhor utilidade aos ônibus, vai muito além de suas próprias proposições.

Os transportes na cidade do Rio de Janeiro tendem a se tornar caóticos e poderão ter desfecho mais dramático do que São Paulo, onde a configuração urbana é menos afunilada. Quem tratar de alternativas de mobilidade urbana entre nós está indo de encontro a uma variedade de tumores que tornam infrutífera até a posse de um carro particular: a cada dia as passagens se tornam mais estreitas e a média de velocidade cai.

Um estudo da Fundação Dom Cabral indica que os engarrafamentos no trânsito causam prejuízo de R$ 7,6mil por ano em média para cada proprietário de carro em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A conta considera o tempo perdido pelo motorista que poderia ter sido gasto de maneira mais produtiva, para geração de renda, além de despesas extras com combustíveis. Considerando uma renda média mensal de R$ 3 mil por motorista, a perda ficou em 17,5 reais por hora gasta em engarrafamentos.

Uma Barra da Tijuca cada vez mais confinada

Como já escrevi antes, a Barra da Tijuca está longe de ser um mundo autônomo, onde as pessoas morem, trabalhem e estudem. A especulação imobiliária se encarregou de destruir a  ocupação racional deste bairro, que se tornou um grande negócio para construtoras e incorporadoras insaciáveis.

Pagaram propinas a vereadores e prefeitos para mudar gabaritos e destruir as normas urbanas que viabilizariam a ocupação inteligente dos terrenos, sujeitando-nos ao mesmo diapasão do Rio de Janeiro, que sofreu um processo de adensamento totalmente desregrado. Sequer se cuidou de uma malha de acessos sintonizada com a velocidade das construções na Barra.

A adoção de sistemas racionais de transportes em grupo, cujo maior paradigma é o Bosque do Marapendi, tornou-se uma obra de engenharia indispensável para reduzir os efeitos traumáticos de uma lógica elementar: dois carros não podem ocupar o mesmo espaço.

Assape entre sua natureza e a realidade

A Assape não é, como seria de bom alvitre, uma associação representativa dos moradores. Antes, ainda é uma salvaguarda da Carvalho Hosken, que tem sua própria ótica e seus próprios interesses na Península.  Até seu endereço oficial é na Avenida das Américas, 3333, sala 718 – parte. Faço essa constatação sem nenhum intuito de desautorizá-la, mas de lembrar a natureza de sua origem.

Quando iniciou o empreendimento aqui em parceria com construtoras e incorporadoras a Carvalho Hosken estava fazendo um investimento de grande monta e não podia permitir a burla do seu projeto construtivo, com suas concepções peculiares.
Mas no evoluir do processo o quadro foi mudando de figura e a construtora foi terceirizando as tarefas gerenciais, sem perder o seu controle real.
Até que a Península inverteu sua composição e os moradores, compelidos a associaram-se numa  cláusula leonina inevitável constante da própria promessa de compra e venda, resolveram também exercitar essa nova realidade.

O problema é que, como ainda alega ser proprietária de lotes nos PALs 38961 e 45209, como ainda tem  apartamentos em todos os condomínios, tem a primeira e última palavra nas decisões, ao ponto de que há condomínio em que seu funcionário, não morador, é quem representa os moradores. Isso sem falar no seu poder de veto, garantido pelo artigo 29 do estatuto outorgado.

Insatisfação e a proposta de desassociar

Isso deu nesse clima de grande insatisfação e gerou a ideia da "desassociação", que mobiliza dezenas de moradores, descrentes da possibilidade de uma relação respeitosa e democrática que considere pelo menos o direito assegurado aos pagantes de uma entidade.
Base jurídica legal existe com jurisprudência do STF. Os condôminos do Way Office já se desligaram. Dificuldade de relacionamento entre um conselho de perfil biônico e os moradores dos seus próprios prédios abre um perigoso  fosso e exaspera os ânimos.

Uma boa parte da comunidade - os mais interessados - está com os nervos à flor da pele. Chegou ao limite principalmente quando constata que vem sendo iludida na discussão dos seus pleitos.

Mas como seria a Península sem sua auto-gestão, sem uma governança própria que seu desenho requer? Muitos proprietários vieram para cá pelas características do bairro, que ostenta uma desejável sensação de segurança e conforto. Por ser ele fechado, a salvo dos perigos que assustam e traumatizam, enfraquecer o poder local teria consequências incontroláveis.

E essa pergunta impõe uma resposta lúcida de parte à parte. Até prova em contrário, é precipitada essa ideia de requerer a "desassociação" como  consequência do autoritarismo e da insensibilidade da Assape, que mexe com a auto-estima e a dignidade de muitos moradores.
Parece claro que um passo desses, antes de esgotar todas as soluções conciliatórias possíveis, pode ser, como disse um leitor, um tiro no pé de cada um.
O melhor seria que, antes mesmo de fazer uma passeata dos justamente indignados, esses se reunissem numa espécie de seminário que abrisse caminho para dar organicidade à própria insatisfação. E para pensar em alternativas seguras,com consequencias calculadas,  para qualquer iniciativa, por mais que o limite da dignidade excite.

Antes de qualquer coisa, portanto, a experiência indica o resgate da lucidez também na condensação de uma insatisfação mais do que latente. É preciso processar e organizar o descontentamento para que ele tenha condições de produzir as mudanças que se fazem tão necessárias.

Organizar é preciso. Como aconteceu na Inglaterra dos anos 80, é perfeitamente possível uma organização paralela informal com verdadeiro poder de liderança e alta capacidade de influência.  Toda essa relação tormentosa  se evidencia desigual pela falta de organização dos discordantes.  Sem ela, a pouco representativa estrutura de poder local confina os descontentes estressados ao efêmero direito de espernear.  E nada mais.

15 comentários:

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  2. Caro Porfírio,

    Em primeiro lugar, gostaria de parabeniza-lo pelo seu blog. Um instrumento democrático!

    Conforme bem discorrido em seu artigo, insatisfação é geral contra a atual Ditadura da ASSAPE!

    Muitos falam em desassociação ( o que não deixa de ser uma opção, caso a ASSAPE mantenha a postura atual), contudo trata-se de uma medida extrema.

    Várias outras opções/soluções poderiam ser tentadas, uma vez que o que se deseja é que exista uma Associação que represente a vontade dos moradores, de forma democrática, com publicidade e transparência dos seus atos, até porque o valor que pagamos mensalmente é extremamente alto (R$209,99) se analisarmos os benefícios que tal Associação propicia aos moradores ( há outras associações na Barra da Tijuca cuja contribuição é inferior e a contrapartida é muito superior)!

    Por esta razão, permita-me sugerir a seguinte pauta para a passeata a ser realizada em agosto:

    - Exigir a renúncia de todos os conselheiros atuais;

    - Convocação de eleições para Conselheiro Comunitário em cada condomínio, com ampla divulgação prévia;

    - Elaboração de um NOVO ESTATUTO ou a reforma do estatuto atual com a participação dos moradores ( o estatuto atual foi elaborado pelas incorporadoras/Construtoras);

    - Convocação de uma "CPI" para a análise de todos os contratos da ASSAPE formada por uma comissão de moradores;

    - Exigência de licitação/tomada de preços para os contratos ;

    - Reforma do Código de Ética ( o atual Código, da forma como foi criado, tem por objetivo, dentre outras coisas, CALAR o conselheiro comunitário, cercear o conselheiro, impedindo que esse divulgue para os moradores de seu condomínio, o que está sendo discutido dentro do Conselho da ASSAPE);

    - Otimização das despesas e receitas a fim de obter a REDUÇÃO da cota associativa ou a melhoria dos serviços prestados atualmente ( inclusive disponibilizando transporte para Centro/Zona Sul sem que seja necessário o aumento da cota associativa;


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  3. Porfirio, mais uma vez parabéns pela sua postura e sábias palavras.

    Enquanto a ASSAPE for totalmente controlada por pessoas JURÍDICAS que nunca foram, não são, e nunca serão moradoras da Península, e sim, só com interesses comerciais na Península (que é o normal), os reais interessados (MORADORES), jamais conseguirão ter os seus direitos respeitados.

    Os nossos direitos legais e justos, na qualidade de associados/moradores, só serão alcançados através de lideranças transparentes e democráticas, união, propostas e posturas dentro da legalidade, e principalmente com a participação física de todos os moradores interessados.

    Paulo Gianinni

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  4. Se fosse só o transporte, não haveria toda essa comoção. Intenção de desassociação já existe há muito tempo. A ASSAPE tem que mudar ou acabar!

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  5. Eu gostaria de falar mais dos resultados das pesquisas. Vejo que pessoas NÃO se sentem representadas pela ASSAPE e isso deveria pesar na consciência principalmente dos conselheiros que agem por conta própria, de costa para os moradores. Aliás, queria dizer que o Gustavo, conselheiro do meu prédio, deu um exemplo, fazendo uma reunião sobre a luta dos transportes no Style. Ele avisou de véspera,por isso não tem muita gente, mas eu fiquei sabendo que foi uma reunião positiva e que ele anotou as sugestões dos moradores. Se todos conselheiros agissem como ele, a insatisfação seria menor.

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  6. Prezado Porfírio

    Primeiramente quero parabenizá-lo por mais uma notável matéria. Só queria deixar um esclarecimento em relação à segunda pergunta da pesquisa, "O CONSELHEIRO DO SEU CONDOMÍNIO O CONSULTA SOBRE QUE POSIÇÃO TOMAR NA ASSAPE?".

    Meu nome é Saulo, sou conselheiro do Smart. De fato eu mesmo responderia essa pergunta como "NÃO". E explico o porquê: a Assape convoca suas reuniões sempre às vésperas, não permitindo ao conselheiro ter tempo suficiente para convocar uma reunião em seus condomínios e então poder levar os anseios dos moradores às reuniões de conselho. Ontem mesmo houve uma reunião de conselho que fui convocado pela manhã, pelo celular, ou seja, nem pude comparecer, pois já tinha um compromisso, e muito menos pude comunicar a pauta previamente aos moradores.

    Realmente desse modo é impossível consultar os moradores antes das reuniões para se tomar decisões. E esta reunião de ontem não foi a única que fui convocado de véspera. De duas uma: ou fazem isso propositalmente, como feito na convocação da AGE do fundo de reserva, para que alguns conselheiros não possam comparecer ou são realmente muito desorganizados.

    Deveriam montar uma pauta com antecedência de pelo menos uma semana e enviar as convocações para que todos pudessem conversar previamente com os moradores, mas a realidade é bem diferente.

    Forte abraço,

    Saulo

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  7. Saulo, muito bom ter esse feedback. Acredito que por esse motivo a conselheira do meu condomínio nunca levou uma pauta para discursão, ao menos que eu não tenha lido nos informativos do condomínio ou estava de férias.
    Acreditamos que para existir reuniões de caráter tão emergencial, sem planejamento deve ter sido de assuntos de extrema urgência ou inadiáveis.
    Como sugestão aos conselheiros e representantes. Utilizem a rede social, e-mail dos moradores, blogs internos dos prédios e etc. Falta de comunicação acredito que não é o problema na era da comunicação em que vivemos.

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  8. Nenhum assunto é tão inadiável que não possa esperar uma semana. É falta de organização e má fé mesmo.

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