domingo, 29 de setembro de 2013

(Quase) a última crônica

"A sabedoria nos chega quando já não

 serve para nada".

Gabriel Garcia Marques, autor de "Cem anos de Solidão"

Dois momentos juvenis: 1959, aos 16 anos com o ministro da Guerra, general
 Teixeira Lott; 1960, aos 17 anos, a primeira viagem ao exterior: congresso de
estudantes da América Latina em Havana, um anos após o trinfo da revolução.
De uns dias para cá tenho me dado conta de que também sou idoso. Que integro esse universo sob suspeita de minar os orçamentos públicos pelo crime de viver além dos cálculos atuariais, pelo que me flagro sob constante ameaça de amputações "saneadoras" que querem abolir velhas conquistas.
Aos 70, pretendia virar as costas para o relógio biológico. Pequeno e barrigudo não costumava ver-me ao espelho, hábito que nunca cultivei mesmo imberbe. Dizia-me e aos demais que a idade está na mente. Pode até ser.

Mas pode não ser. As forças não são as mesmas. Por enfermidades presumíveis checadas em baterias de exames dissipa-se o brilho no horizonte. Pela sensação do tempo perdido em inúteis sacrifícios pretéritos aproximo-me de amargas constatações.

Já não sei nem se vale a pena exprimir o pensamento, pois não me consta que exista realmente alguém disposto a refletir sobre minhas perorações.

De repente, creio, a tela do computador tornou-se o meu espelho. Se há um ou outro interessado nos meus escritos será por exceção.

Até prova em contrário, perdemos o hábito de ler. E se lemos o fazemos por distração, procurando adequar o lido a ditos e valores anteriores.
Definitivamente, somos uma sociedade de descartáveis com obsolescência calculada, como disse na ONU o sábio José Mujica, meu paradigma, presidente uruguaio, do  alto dos seus 78 invernos.
Consola-me o óbvio: eu sou você amanhã. Mas não é de consolos compensatórios que o ser humano vive.

Nesses dias de dúvidas acumuladas, olho para trás e, ao contrário da grande maioria, digo que se tivesse que começar tudo agora não faria (quase) nada do que fiz, andando de um lado para outro em busca dos sonhos perdidos e, infelizmente, sepultados no túmulo das desilusões.  Pensaria, sim, como penso desde tenra idade. Mas seria mais prudente em cada passo.

Não que eu tivesse agido melhor se tivesse me rendido à sofreguidão do sucesso pessoal obsessivo. Não. Mas daí a um despojamento febril há um leque de alternativas.
Se ainda posso escrever no conforto material que me permite a palavra livre, incorrosível, devo mais à sorte do que ao cérebro, de fato formatado por larvas vulcânicas, sem o conhecimento do cálculo e da causa própria.
Podia hoje nem estar entre os vivos, tão afoito fui. Por sorte, não faço parte da lista dos mortos e desaparecidos dos anos de chumbo. Podia ser um daqueles jovens que se entregaram aos sonhos e pereceram na liça. E que hoje só são lembrados como ilustração histórica, lixando-se os pósteros para a essência do seu martírio.

A idade desenvolve uma lente cruel, destituída das ilusões inerentes. É o preto no branco sobrepondo-se às mil cores das frenéticas expectativas pueris, produzindo um foco de exigências antes desprezadas, com uma carga áspera de intolerância.

A autocrítica é inevitável. A que nos oferecemos naqueles idos à incerteza? A essa corrida voraz pelo consumo orgástico de qualquer coisa? À sedução fácil aos truques das aparências ou ao afã da acumulação desmesurada?

O mundo hoje pode até ser mais tecnológico do que antes.  Pode nos permitir todas as travessuras e deleites pela fartura de respostas eletrônicas mágicas à avidez do instinto.

Esse progresso, porém, nos desumanizou. Não são tão profundas hoje as relações de amor, antes, pelo contrário. Por qualquer infortúnio efêmero rompem-se os laços. Rareiam como exceções à regra os sentimentos de fidelidade atávica.

As gerações se distanciam no turbilhão da cobiça, nas tatuagens narcisistas que impregnam corações e mentes. O ambiente é de desconfiança generalizada em que cada indivíduo é um mundo ensimesmado.

Quisera estar errado por não assimilar a moderna fórmula da vida. Ou então por estar vendo as coisas em função de um desapontamento localizado.

Mas, até prova em contrário, essa modernidade de superfície é um beco sem saída para a alma e uma fogueira para o corpo. Aquele ser humano que buscava a virtude como fonte de inspiração sucumbiu na mais insana das guerras - a que transforma cada um em adversário e concorrente de cada um, mesclando competição, ódio e inveja num morteiro letal.
Opor-me a essa sina é uma determinação que me acompanhará até a sepultura. Mas que poderá ficar só comigo, sem traumas nem cobranças, se não houver companhias pela semelhança na compreensão da vida.

7 comentários:

  1. Que esta seja a primeira de uma serie de "Quase ultimas".

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  2. Muito bom caro Porfirio! Afinal quando você estava ao lado de Lott, eu ainda estava no nascedouro. Pior que já me considerava no time de "anciões sem causa" que você descreve na sua crônica. Mas, este seu excelente texto me fez entender que, embora o inevitável sempre aconteça, o que nos mantém vivos (no sentido mais amplo da palavra) são os sonhos (perdidos ou inatingíveis) e certamente você muito mais que muita gente teve uma enormidade deles e ainda deve conservar uma boa dúzia deles.
    Parabéns e que nos brinde com uma grande quantidade de "últimas crônicas"!!!

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  3. Querido Porfirio, digo querido, pois apesar de não ter tido o prazer de te conhecer pessoalmente, tenho acompanhado o seu blog desde que iniciei a compra do meu recente apto na Península e já leio e estimo o seu blog como um termômetro da realidade aqui.

    Saiba que todos os seus escritos são de grande valia...não que concordemos todos com tudo...mas porque nos estimula a fazermos algo raro na minha geração (de 35 anos)...PENSAR...e pensar racional e conscientemente.

    E creio que isso já deve ser suficiente a recompensa-lo por todo o esforço e dedicação.

    De outro norte, não pense ser em vão o seu trabalho, pois ao contrário do que disse neste desabafo...antes de tudo esse é o seu chamado...sua missão e sei que cumpri-la o completa...o deixa feliz!

    Obrigado por sua contribuição para a minha geração e lembre, precisamos de ideais...precisamos de opiniões ainda que diferentes, contrárias, mas precisamos de inteligência e principalmente de imparcialidade, integridade e Coragem...você tem, sabemos, pois a boca fala do que o coração esta cheio.

    Um grande abraço e se não for pedir muito...continue até o ultimo dia cumprindo a sua missão.

    Max Ferreira

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