quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A transcaótica de uma cidade sem leme

Chuvas mostram bairros submersos por que o prefeito preferiu gastar com obras polêmicas e com a destruição da Perimetral
Não pretendia escrever por estes dias, enquanto espero autorização do Seguro para iniciar o tratamento radiológico de um câncer no fígado, conforme informei na postagem anterior. Por mais sereno que esteja, tenho de cuidar da saúde, como condição para sobreviver a esse ataque inesperado que, segundo os médicos, pode ser vencido, desde que enfrentado a tempo e à hora.
Se a Via Binário, de superfície, virou lago, imagine o que acontecerá
no túnel que está sendo escavado em área de aterro do mar
Mas todo esse caos que transformou a quarta-feira dos cariocas e moradores da Baixada num verdadeiro inferno me tirou do sério. É impossível deixar de registrar a indignação de todos diante do caos que marcou todo o dia, desde a madrugada, principalmente na capital, que hoje joga recursos pelo "ladrão" em obras de interesse quase exclusivo das empreiteiras e empresas de ônibus, abandonando providências elementares, especialmente as prevenções contra chuvas fortes, cujo desmazelo se equipara à destruição da saúde pública e da educação.

Ultimamente, tenho refletido muito sobre esses 70 anos de vida que espero se prolonguem por cima de pau e pedra. Passo em revista toda uma vida inquieta, pautada pela relação crítica com a hipocrisia e a manipulação. Afigura-se muito doloroso constatar algo que me deixa profundamente amargurado, como se tivesse sido em vão todo o sacrifício juvenil, que me custou um ano e meio de prisão nos cárceres da ditadura, depois de 16 dias de torturas quase mortais:

a classe política de hoje degenerou geral, é muito mais depravada do que os políticos de conveniência de outrora.

Enganar, mentir, corromper, deixar-se corromper, manter uma relação privada com a coisa pública, passar o eleitor para trás, tudo isso se tornou uma rotina descarada. E o que mais me amargura, porém, mais mesmo do que a audácia dos políticos espertos, é a tendência dos cidadãos em deixar-se enganar, em iludir-se com uma facilidade assustadora, no culto assumido do ME ENGANA QUE EU GOSTO.

Não é exagero dizer que a cidade do Rio de Janeiro vem sendo inviabilizada por uma administração totalmente despreparada, que não tem uma visão do todo, não sabe o que é estratégia, não assimila o óbvio, preferindo enveredar por obras faraônicas e projetos de retorno imprevisível.

A marca mais saliente desses desatinos é a demolição do elevado da Perimetral, a um custo superior a R$ 1 bilhão, desfazendo o mais eficiente elo entre a Zona Sul e vários destinos nas Zonas Norte,  Oeste e até na Baixada, sem passar pelo centro da cidade, sem submeter-se aos riscos de alagamento numa região de aterro, que já foi mar, mas onde, infantilmente o prefeito Eduardo Paes pretende construir uma passagem subterrânea de 4 km, algo cujos malefícios serão mais sentidos quando esse túnel entrar em operação.

Como ensaio, já tivemos hoje o vexame da chamada Via Binário, ainda na superfície, que ficou boa parte do dia fechada ao tráfego, debaixo d'água, enquanto o prefeito alegava na maior cara de pau que algumas bombas de sucção não ficaram prontas ainda: isto é, o escoamento de um trecho dessa importância para o acesso ao Centro da cidade vai depender de bombas. Imagine como será o túnel cavado em área de aterro somente por que o prefeito, como o seu enorme poder de decisão pessoal, quer valorizar uma região engolfada suprimindo o viaduto seguro, sacrificado por que incomodaria futuros prédios de 50 andares no chamado ironicamente "Porto Maravilha".

De tal sorte é a irresponsabilidade desse prefeito que ele se apressou em desapropriar (comprar, na prática) o terreno alagadiço do todo poderoso Jacob Barata, o rei dos ônibus,  onde o Papa  rezaria uma missa, sem esperar sequer os pareceres dos órgãos especializados. Agora, o Instituto dos Arquitetos do Brasil, consultado oficialmente, está lavrando parecer apontando a área como inadequada para construções.  Parecer que seria desnecessário, pois essa condição saltava à vista. Esse é apenas um exemplo da gestão nada republicana de um administrador no mínimo incompetente.

Na Barra da Tijuca, onde há uma emergência na recuperação do elevado do Joá, as obras correm lentamente, por que a verba disponibilizada é ínfima, em comparação com os mais de R$ 900 milhões gastos com o BRT que liga à Guaratiba. Para agravar, o governo do Estado limita deliberadamente o metrô ao Jardim Oceânico, no início do bairro, quando ele poderia chegar pelo menos ao cruzamento da Ayrton Sena, com um custo por km muito menor, principalmente se fosse aéreo, como em várias cidades dos Estados Unidos.

Tudo acontece, infelizmente, por conta do silêncio dos próprios interessados, os cidadãos do Rio de Janeiro, que se omitem perigosamente, deixando a terceiros as decisões sobre seu destino: isto tanto  a nível macro como nas próprias células urbanas, os condomínios, onde os abusam são cometidos sem qualquer reação.

Como sempre disse, é uma quimérica ilusão imaginar a Península fora de um contexto caótico, indiferente a aos traumas de uma cidade por onde temos que passar a caminho do trabalho ou da escola. Onde provemos nosso sustento e nossos conhecimentos.

Essa cidade está perdida à falta de um timoneiro competente e de um corpo legislativo independente, capaz de resistir à cooptação fisiológica. É uma cidade politicamente capturada pelo que há de pior, sem o contraponto sequer das entidades da sociedade civil: até mesmo as associações de moradores surgidas nos idos dos anos 70 sucumbiram ante a inutilidade do seu grito, hoje abafado.

É uma pena, mas a cada dia viver nesta cidade abençoada pela natureza é uma aventura cada vez mais arriscada: a maldição dos seus homens públicos e os interesses espúrios que os subornam falam muito mais alto.

4 comentários:

  1. CONCORDO PLENAMENTE COM VOCE. O QUE MAIS ME ASSUSTA, É A RAZÃO PELA QUAL NOS MANTEMOS TODOS CALADOS, SEM ESBOÇAR QUALQUER REAÇÃO DIANTE DOS ABSURDOS QUE ESTÃO SENDO COMETIDOS DIA APÓS DIA NESSA CIDADE PRIVILEGIADA PELA NATUREZA. A IMPRESSÃO QUE TENHO É QUE ESTAMOS ANESTESIADOS, QUEM SABE, DIANTE DA AMARGURA DE SE PERCEBER ILUDIDO E MASSACRADO PELA CORRUPÇÃO E FALTA DE ÉTICA INSTALADA EM NOSSA SOCIEDADE, ATRAVÉS DAQUELES QUE, TEORICAMENTE, DEVERIAM ZELAR PELO NOSSO PATRIMÔNIO. INFELIZMENTE, ESSA CULPA TAMBÉM É NOSSA, POIS, AO IRMOS ÀS URNAS TEMOS FEITO OPÇÕES NO MÍNIMO, LAMENTÁVEIS.ENQUANTO NÃO TIVERMOS CONSCIÊNCIA DO NOSSO PAPEL , NÃO NOS FIZERMOS OUVIR E NÃO ASSUMIRMOS O CONTROLE DAS NOSSAS DECISÕES, NADA MUDARÁ. OU MELHOR, SÓ MUDARÁ PARA PIOR. AFINAL, O QUE MAIS PRECISA ACONTECER PARA QUE VENÇAMOS A INÉRCIA?

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  2. Grande Porfirio, você é um dos poucos patriotas que conheço.

    Concordo com o comentário do Anônimo(a) acima.

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  3. O Jacob Barata é um empresário bem sucedido no ramo dos transportes. Não é dele nenhuma dessas responsabilidades, e até onde eu saiba ser bem sucedido não é errado.

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