quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A verdade sobre a banalização das terceirizações em nossos condomínios

Muitas são desnecessárias. A autoterceirização é fruto da desconfiança do próprio vizinho


Se você contratar alguns profissionais para trabalhar na manutenção do seu condomínio, pagará os salários de mercado com os benefícios estipulados e fará o controle efetivo do seu desempenho, pois haverá uma relação direta. Mas se você contratar uma empresa para intermediar esse pessoal, pagará  até três vezes mais e ele estará sujeito a rodízios que não o tornarão familiar aos condôminos.

A terceirização não surgiu para isso, é claro.  A sobrecarga no orçamento não é regra geral na delegação de serviços. Os entes públicos são mais viciados em práticas deletérias, mas grandes empresas preferem delegar serviços, sobretudo onde é mais difícil controlar desvios, sempre tendo a otimização dos custos como norte.

Dir-se-ia que a terceirização se insere no catálogo da modernização sistêmica. Ela é mais produtiva em empresas dotadas de instrumentos e softwares de acompanhamento e avaliação. No âmago dessas empresas trava-se uma guerra surda de posições que impõe aos executivos precauções para não cometerem erros que lhes custem os empregos.

Mas quando se lida com dinheiro público ou dinheiro de terceiros os parâmetros são outros e refletem até mesmo a sofreguidão do exercício de cargos por prazos determinados. A possibilidade de alternância na posição é um ingrediente indutor de desvios de conduta. Sem saber o que será do amanhã, o mandatário de ocasião é tentado a resolver sua vida no prazo de que dispõe.

A terceirização nos condomínios é coisa recente. Pode-se dizer que até os anos 90 não era comum contratar uma empresa de limpeza, sendo mais recente ainda essas práticas de porteiros intermediados. Nos prédios antigos, ainda encontramos o apartamento do porteiro, tal o envolvimento na vida do condomínio desse empregado, que tinha de ser familiarizado e de total confiança.

A gestão terceirizada coincide com a descoberta de que grandes condomínios têm grandes receitas e são, portanto, promessas de bons lucros sem custos de investimentos para empresas-síndicas.

Por se enquadrar na esfera dos serviços, as possibilidades de valores aleatórios são maiores ainda. O intermediário na terceirização de serviços não precisa investir em nada: basta ter um CNPJ e um endereço. O pessoal que ele vai locar nem precisa  aparecer  em seu escritório.

De tal sorte passou a interessar vender serviços terceirizados que as próprias construtoras criaram subsidiárias no ramo condominial. Elas têm empresas administradoras e, mais recentemente, criaram firmas que vendem serviços de "sindicância” a preços muitas vezes superiores à remuneração dos síndicos moradores – em muitos casos, estes são beneficiados apenas com a dispensa do pagamento de sua cota condominial.

Nesse carnaval de terceirizações já convivemos com a terceirização da terceirização e assistimos a uma hipertrofia de custos. De forma limpa ou suja, com remuneração por dentro ou por fora, o condomínio se transformou num item hiper-oneroso do orçamento doméstico: há casos em que a cota condominial é maior do que o próprio aluguel.

A autoterceirização é induzida. Não é difícil convencer a um condômino de que seu vizinho ou é um incompetente ou um mal-intencionado em potencial. Para fazer frente a essa “ameaça”, empresas espertas oferecem síndicos profissionais “formados” para o mister, prontos para fazer melhor do que o mais vocacionado dos moradores.  

Sendo ele um terceirizado, sua tendência é implementar a terceirização num círculo vicioso que substitui qualquer ralo. Há um condomínio na Península que tem hoje 35 contratos terceirizados. E pratica algumas dessas terceirizações de forma esperta:

porteiros são empregados como se fossem seguranças e são postos para trabalhar sem nenhum treinamento,

penalizando sistematicamente os moradores com situações incômodas e com a exibição do seu ostensivo despreparo: quando ocorreu um incêndio em um apartamento do 15º andar, ninguém soube ligar as mangueiras e nada funcionou; num apagão de 3 horas, uma moradora ficou 40 minutos enclausurada num elevador a um temperatura superior a 40 graus.

São tantas as evidências negativas que não se entende por que alguns condôminos se empenham com tanta intransigência para manter esse modelo caro com serviços de qualidade discutível.

A bem da verdade, a autoterceirização  só existe em alguns condomínios, que por coincidência têm os maiores orçamentos, não têm conselhos fiscais na convenção e seus condôminos, não reclamam da falta de transparência, como a inexistência de práticas comuns, entre as quais o envio (mesmo por e-mail) das contas do mês, informando o que entrou e o que saiu.

Não exagero em dizer: onde tem terceirização desnecessária, em excesso, boa coisa não acontece. É possível aquilatar o grau de lisura e/ou de zelo de uma administração pelo abuso na terceirização dos serviços. É possível prever o volume de desinformação tendenciosa pela autoterceirização, quando se descarta o morador em proveito dessas empresas forasteiras.  

O morador que fizer uma bobagem sabe que ficará mal com a vizinhança e sem ambiente. O síndico estranho some na poeira e nunca mais será visto.

É de uma lógica cristalina. Mesmo assim, ainda há quem seja convencido pela ideia de que o vizinho, alguém como ele, não tem preparo ou boas intenções para ser o seu síndico.

Para que assim apareça e prospere quem só está ali por interesses pecuniários.

6 comentários:

  1. Os contratos/termos de terceirização que os Poderes Públicos assinam com ONGs, instituições filantrópicas ou instituições privadas, muitas vezes também são absurdos, sem transparência e fiscalização, e principalmente sem prestação de contas aos cidadãos trabalhadores desse país, que contribuem regiamente com absurdos impostos, taxas, contribuições, etc... .

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  2. A terceirização permite muita coisa porque uma pessoa não vai dar 10% dos seus salários, mas as firmas tem essa margem para favorecer quem favorecer elas

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  3. Uma vergonha e o que vai acontecer com o "novo" controle de acesso ao Peninsula.Vamos ser obrigados a pagar novamente os TAGS pq eles resolveram mudar o que ja existia.Não faz nenhum sentido isso...nos ja tinhamos um sistema de TAGS e quem tem direito a mais de duas vagas no predio vai ter que PAGAR os outros TAGS.Lembrando que a ASSAPE ja cobrou pelos TAGS uma vez...e agora estao cobrando de novo....amanha eles resolvem trocar os sistema ( que na verdade e igual) de novo ai vamos nos de novo pagar....

    Alex

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