sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

As várias faces do medo

Falta de gerador para elevadores e de luz de emergência nas escadas deixa condomínio assustado

"Pior do que ficar sem luz nesse calor foi ter 
ficado  40 minutos no elevador!!! Um absurdo
o condomínio não ter gerador. Escadas escuras"
Livrar-se do medo em casa era o "sonho de consumo" de quem optou por morar na Península, um projeto onírico e sedutor. Existia - como ainda existe, apesar dos pesares - a possibilidade de fruir momentos de inusitado prazer num espaço privilegiado pela natureza, um pedaço de terra margeando uma lagoa, com seus enigmáticos manguezais, um verde exuberante e a uma diversidade de opções de lazer.
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Quem veio para a Península se viu diante de uma raridade urbana, algo quase original e exclusivo. Não passava pela cabeça de ninguém que teria de se defrontar com o desassossego como rotina, atormentado por notícias de assaltos no entorno e submetido a incompetência e intolerância no exercício do poder local.

Esse inesperado clima de tensão não emana apenas da insegurança, de resto uma maldição que assola a cidade ante uma política equivocada de governo, que abandona as áreas alvos dos bandidos e concentra efetivos em comunidades podres, como se essa pressão policial "cortasse o mal pela raiz".

Dependendo do condomínio, outros elementos de desconforto e medo se somam, na construção de verdadeiros paradoxos.  Como pode um "clube residencial" com tantos produtos de marketing estar inteiramente desguarnecido em situações elementares?

Com 32 elevadores ligados noite e dia, pela natureza do seu "conceito" e de seu projeto, o Saint Barth, de 330 apartamentos, foi castigado pelo apagão da quinta-feira, dia 6 de fevereiro, por mais de 3 horas, juntamente com o seu irmão gêmeo, o San Martin.

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Irmãos gêmeos, mas diferenciados, entre outros fatores, pelo tratamento final: segundo pesquisa que realizamos através da página do grupo Reais Amigos da Península, a construtora entregou o San Martin com os geradores indispensáveis para suprir os elevadores na emergência. O mesmo não aconteceu no Saint Barth. Por que? 

De fato, a quase totalidade dos condomínios da Península não contava na sua origem com os geradores. Vários, no entanto, por iniciativa de seus síndicos, todos moradores, decidiram enfrentar o problema e podem apresentar, até como elemento de valorização dos imóveis, a certeza de que ninguém vai ficar preso nos elevadores em caso de um colapso na energia, algo cada vez mais frequente nesses dias perversos de calor escaldante.

Na pesquisa que realizamos, recebemos respostas de moradores entusiasmados com atitudes de alguns síndicos, condôminos como eles, que vivem diretamente os bons e os momentos difíceis dos seus vizinhos. Não se pode dizer o mesmo dos três condomínios que contratam "empresas" para exercerem a função de síndico. Antes, pelo contrário.

O estranho no ninho está no cargo por interesses exclusivamente pecuniários. Dá expediente no horário comercial e se manda o mais cedo possível, deixando sem comando sua "pequena cidade", onde, aliás, está de passagem.

Isso serviu no caso para aumentar a distância entre seu poder decisório e a compreensão das prioridades. Não foi por acaso que alguns comentários postados no Facebook do grupo estranham um condomínio desse porte conviver com tanta negligência:

quando houve um incêndio num apartamento do 15º andar, há pouco tempo, viu-se que nada funcionou, nem as mangueiras, nem os demais equipamentos. Nem tampouco havia pessoal treinado para situações como essa, o que deixou os bombeiros ostensivamente indignados.

Semelhante situação verificou-se agora com a falta de energia: independente da inexistência de geradores, não havia sequer luz de emergência nas escadas, um quadro realmente caótico em contraste com a imagem que se tem à primeira vista e com o custo do condomínio, onde se paga em média mais de R3.000,00 por mês.

É da lógica do convívio. Numa comparação genérica, o síndico está para o condomínio, assim como o prefeito está para a cidade. Ninguém até hoje pensou em contratar uma empresa para exercer as funções de prefeito. Este, bom o ruim, com mandato aprazado,  sempre está exposto ao julgamento dos cidadãos.

Dou essa volta por que estou passando pessoalmente por esse drama. Estamos próximos do pânico, ao ponto dos porteiros avisarem aos moradores para não usarem os elevadores hoje, das 13h30 às 15 horas. A administração temia novo black out e não queria ter o desgaste da véspera.

Morando no segundo andar, decidimos sempre usar a escada na hora de descer. A mais velha do clã, de 78 anos, está preferindo abrir mão da caminhada que fazia todos os dias, com medo do elevador parar com ela dentro.

Provavelmente, outros moradores devem estar adotando os mesmos procedimentos. Não há como confiar, até por que, ao contrário do que se havia proposto anteriormente,  a mesma empresa acumula a função de síndica, pela qual é remunerada em R$ 22.000,00 e de administradora, com outra gorda remuneração, além de ter gerente e funcionários da administração pagos à parte pelo condomínio.

Sem conselho fiscal, sem o hábito de divulgar as contas, essa empresa-síndica tem os votos da construtora - cujo representante também não é morador -  para permanecer à frente de uma receita anual de R$ 12 milhões, aproveitando-se, igualmente, do baixo índice de participação dos condôminos.

Fica o registro como um elemento de avaliação de todos. O que acontece em um dos 25 condomínios da Península é algo que não desejo nem aos desafetos.

8 comentários:

  1. PREZADO PEDRO,

    Li sua mensagem indignada sobre as deficiências do seu condomínio. Confesso que fiquei surpreso com duas situações que você mencionou e passo a fazer algumas considerações, cujo objetivo é ajudar seus vizinhos a refletir sobre elas para buscar soluções:

    1) FALHA NOS EQUIPAMENTOS DE COMBATE A INCÊNDIOS.

    a) MANGUEIRAS DEFEITUOSAS OU FALTANTES / ACESSÓRIOS FALTANTES
    - Não foi um privilégio do San Barth está constatação. Certamente muitos condomínios da Península (e no restante da Cidade e do País não seria diferente) estão nas mesmas condições, por irresponsabilidade dos órgãos responsáveis, que não fiscalizam com regularidade, mesmo que seja por amostragem, seja por incompetência e/ou irresponsabilidade dos Sindicos, que muitas vezes assumem o cargo por mera vaidade e/ou vantagem financeira oficial e , infelizmente, as vezes nem tanto. É claro que muitos são corretissimos e bem intencionados, mas quase sempre lhes falta conhecimento técnico para avaliar e cuidar da manutenção predial de edificações do porte dos condominios clube como os da Península. Portanto, o ideal nestes casos é que o Sindico seja realmente um morador, mas que na estrutura do condomínio tenha um Gerente Executivo com experiência em manutenção predial e administração de pessoal, cabendo ao Sindico fiscalizar e acompanhar frequentemente sua atuação.

    Aqui no Bernini eu assumi como Sindico depois de cinco anos de sua entrega pela construtora e numa das vistorias prediais que fiz ao assumir me deparei com várias irregularidades nos equipamentos de combate a incêndio (faltas de mangueiras e acessórios metálicos de conexão; falta de manutenção na central de pressurização do sistema de splinkers; falta de manutenção dos para raios etc.); inoperância de várias luminárias do sistema de emergência nas escadas, que serão rota obrigatória de fuga nos casos de incêndio, já que os elevadores são desligados nestas situações.

    B) BRIGADA DE COMBATE A INCÊNDIOS
    Dependendo do porte do condomínio e do número de funcionários existe uma lei que obriga a existência de uma Brigada de Combate a Incêndios Privada no local. Acredito que na Península apenas o San Barth se enquadra nessa situação. Entretanto, enquanto Conselheiro do Bernini na ASSAPE e Coordenador de Comunicação desta eu concedi uma entrevista para a revista Península e sugeri a criação de uma CENTRAL DE SEGURANÇA na estrutura da ASSAPE, que pudesse atender não somente casos de violência criminal contra as pessoas ou ao patrimônio, mas também em casos de Princípio de Incêndio e de pessoas que ficam presas nos elevadores por defeito ou falta de energia. A Brigada atuaria em regime de 24 Hs x 7 Dias e ficaria lotada em dependência física criada pela ASSAPE dentro da Península, o que abreviaria muito o tempo de atuação nestas situações de emergência, minimizando tempo de pânico, riscos de vida e danos ao patrimônio. Os casos mais graves continuariam a ser combatidos pelos Bombeiros Militares.

    Sei que seu DNA de jornalista o leva a divulgar matérias de interesse público, sejam elas Boas ou ruins, mas precisamos restringir nossas mazelas apenas aos moradores da Península. Ocorre que a Internet é TERRA DE NINGUÉM.

    Precisamos cobrar melhorias de quem de direito, seja o Sindico dos nossos Condomínios, a Diretoria da ASSAPE ou as Autoridades Constituidas, mas algumas coisas não devem ser atiradas no ventilador da Internet. É muito perigoso...

    Um abraço,

    SILVIO IZOTON
    Residencial Bernini

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    1. Silvio
      Obrigado por seu comentário e por seu depoimento, com informações técnicas consistentes.

      Espero que suas palavras sejam recebidas como uma colaboração positiva para todos.

      Sobre suas ponderações finais, esclareço que nessas minhas informações pesa mais do que o DNA de jornalista: minha experiência na vida pública mostrou que a TRANSPARÊNCIA e o COMPARTILHAMENTO são armas de grande alcance para evitar que certas falhas, deficiências e desvios sejam empurradas para debaixo do tapete, garantindo a IMPUNIDADE e as práticas deletérias que a todos prejudicam e afetam.

      Nesse ponto, não tenho feito segredo nem mesmo do meu estado de saúde, dessa luta que travo com dignidade e esperança contra o câncer que se alojou em meu fígado. Nesse caso, o meu objetivo é muito mais profundo, é dizer aos demais mortais que ninguém pode se imaginar acima do ciclo vital, o qual deve ser encarado com firmeza, compreensão e esperança. Se amanhã algo me acontecer, que todos assimilem o fato sem os traumas e o sentimento de pesar extremado. Pois eu mesmo sei que o dia de cada um chegará, inclusive o meu, de onde costumo brincar: morrer será a última coisa que farei na minha vida.

      Quando relato no CORREIO DA PENÍNSULA deficiências no âmbito de uma administração de recursos coletivos (condomínios e associações não são companhias limitadas), provoco uma reflexão em todos - em quem falha por administrar sem a paixão devida, sem a honestidade exigida ou sem o rigor indispensável e a quem se omite e vai acabar pagando a conta.

      Que bom se essa pratica se aplicasse a todos os entes públicos,, pois o cidadão que carrega o país nas costas com o seu trabalho e seus impostos se sentiria mais respeitado e se obrigaria a também fazer sua parte.

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  2. Boa noite Pedro,
    Acrescentando o q meu vizinho do Atmosfera relatou.
    Não sei em qual bloco ele mora, mas sou moradora do Bloco 4, vizinha da síndica, e digo q aqui faltou luz por 3 noites seguidas e duas tardes, sendo q uma fase às 21:30hs desligava e às 2:00hs desligava a outra.
    A Light resolveu nosso problema trocando a peça, sendo q no dia da troca ficamos 1:00 sem luz a tarde.
    Mas ontem tivemos outro pico de luz.
    Lamentável!!!!
    Carla

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  3. Porfirio, concordo com o Silvio Izoton, e digo mais, NÓS SOMOS OS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS por esses e outros absurdos que acontecem diariamente em nossa sociedade, tudo porque não cobramos, e tampouco não fiscalizamos, como, quando, onde e por que, os setores público e privado usam os tributos, encargos e pagamentos que nós trabalhadores fazemos regularmente aos setores público e privado.

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