quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Usem os transportes públicos"

Para quem mora na Barra da Tijuca a intimação do prefeito Eduardo Paes é uma piada de mau gosto

- Eu tenho uma pesquisa, que fiz há dez anos, que mostra que só na zona sul, em Ipanema e no Leblon, havia 500 veículos para cada 1.000 habitantes. Só na Barra da Tijuca, eram 700 automóveis para cada mil habitantes.

Professor Paulo Cezar Ribeiro, coordenador de Engenharia do COPPE, da UFRJ (em 2012)

Todo esse caos induzido que transformou o Centro no cenário principal de uma cidade paralisada e inviabilizada obriga a todos os moradores da Barra da Tijuca e vizinhança a uma reflexão e até mesmo a uma revisão dos seus hábitos, compulsórios ou não.

Todo mundo está sendo oficialmente intimado pelo prefeito Eduardo Paes a deixar seus carros em casa e a usar "transportes públicos". Enquanto moradores de outras áreas têm a opção do metrô, (precária, mas têm), nós não sabemos o que seja transporte público e a Prefeitura está gastando fortunas para construir vias que não têm nada com a nossa demanda reprimida.

No caso particular dos moradores da Península os reflexos são mais sentidos: somos o único grande grupamento residencial que não dispõe de transporte coletivo próprio para o centro ou mesmo para a Zona Sul, preferindo consumir a rubrica de

transportes - R$ 250.000,00 - para ônibus de fachada, de alto luxo, que fazem micro-percursos e funcionam praticamente como circulares de mostruário com maior parte de sua quilometragem percorrida pelas ruas internas.

O Centro, região saturada e espremida, ainda sedia grandes empresas, a maior parte das repartições públicas e três quartos do Poder Judiciária. É bem provável que a maior parte dos 300 mil moradores da Barra e Recreio, inclusive os da Península, ainda tenha sua vida laboral enraizada ali, apesar de algumas iniciativas pontuais de descentralização e realocação.

Não é de agora que se tenta fugir a uma fatalidade urbana anacrônica. A própria ocupação da Barra seria uma alternativa, se seduzisse mais do que pessoas em busca de moradias confortáveis. Tudo o que se pensou era ter aqui o bairro próximo do autossuficiente, com a presença proporcional de espaços comerciais e de serviços, repartições públicas, varas de Justiça, escolas, hospitais e consultórios. Já estão por aqui algumas empresas, como Shell Brasil, Esso Brasil, Vale do Rio Doce, Vivo, Michelin, Nokia, TIM, Unimed, mas os custos do metro quadrado são inibidores salientes, pois representam mais de 5 vezes os dos locais onde grandes plantas funcionam hoje.

Não se pode negar que essa harmonização está em planilhas e projetos. No entanto, falece à maioria dos que vêm morar aqui e já têm seus compromissos profissionais alhures o poder de importar também seus birôs e computadores.

Essa constatação não poderia surpreender aos planejadores urbanos que incrementaram a migração para cá. Movimentações humanas são consolidadas ao longo de gerações e não são manipuláveis por varinhas mágicas.

Antes de oferecer à construção civil os 165 Km2 Da Barra e Recreio (equivalente ao tamanho da região urbana de Tel Aviv, Israel, ou da cidade de Miami, Flórida), o poder público teria que ter pensado os transportes e as próprias vias de escoamento, hoje engarrafadas pela maior parte do dia, bem como as alternativas metroviárias e marítimas.

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Quem veio para cá não pode imaginar-se num oásis sem nexos com a realidade urbana. Isso quer dizer: somos parte de uma cidade que cresceu às tontas e despeja sua expansão desordenada sobre as cabeças dos cidadãos que, por sua vez, habituaram-se a uma visão bitolada, a partir de sua própria concepção de vida.

Há como agravante a inércia que produz uma grande maioria silenciosa, indiferente,  acomodada. Essa tendência se reflete na primeira célula coletiva - o condomínio, onde os índices de participação não passam dos 20%, em média.

Quando a empreendera da Península a concebeu deve ter trabalhado com a percepção tutelar. A própria adesão compulsória à Assape amarada nas escrituras ofereceu um flagrante vício de origem, no desprezo de cláusula constitucional pétrea.  Os mecanismos associativos foram outorgados pelas construtoras, que preservam sua hegemonia sobre os moradores:

estes só teriam poder decisório se fosse ampla a participação a partir do seu condomínio, pois o representante escolhido é detentor em assembléia de todos os votos ausentes.

A possibilidade de mudança é remota, por que a instituição condominial ainda não foi assimilada como uma sociedade de proprietários com direitos iguais. A menos que se faça uma mobilização insistente, muitos moradores continuarão prisioneiros de sua própria timidez e insegurança. E as assembléias serão frequentadas apenas por um punhado de interessados eventuais.

Como consequência, o morar na Península sem um amálgama legítimo, sem uma liderança real e sem uma estrutura de intercomunicação é conviver com incógnitas e com a impotência.

A questão dos transportes está posta dentro de um contexto maior: a cidade ficou pequena para seus 2 milhões e 400 mil automóveis, mas à falta de transportes de massa deixa moradores de bairros como a Barra da Tijuca de pés e mãos amarrados, tendo nas frotas próprias de ônibus a única saída, ainda que parcial.

É isso que não podemos desconhecer, sob pena de absorvemos aqui dramaticamente o caos diário do Centro da cidade.

10 comentários:

  1. Realmente triste o fato dos transportes no nosso condomínio. Esperamos com o Caos que o centro se encontra e mais colegas se sintam acomodados e venha a solicitar esse ônibus ao menos até o metro de Ipanema e votem na pesquisa que esta ocorrendo na ASSAPE.

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  2. Desejo que um dia, os administradores do dinheiro público ou privado que analisam, projetam e fornecem os serviços de transporte rodoviário, ferroviário e marítimo no Rio de Janeiro, sejam obrigados por lei a usarem esses serviços com suas respectivas famílias no mínimo 4 vezes por semana.

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  3. Olá Sr. Porfirio, por acaso o sr. sabe o tel de contato do despachante Miltinho do Gurengue? Grata, Aline.

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