sábado, 22 de março de 2014

Chegou a minha vez

Preso no elevador no apagão dessa sexta-feira,  senti na própria pele a falta que faz um gerador

Fiz questão de mandar fotografar a hora do resgate

Juro que, ao entrar no elevador, me veio o velho resmungo incorporado à minha rotina:

-  Estou cansado dessa expectativa agourenta de passar enclausurado por um apagão noturno. Tenho que tirar isso da cabeça. Isso já virou uma paranóia mal resolvida. E mais pensei: por que seria premiado se há tanta gente subindo e descendo muito mais vezes do que eu?

Mal me dera por isento quando o pior aconteceu. A três ou quatro segundos de abrir a porta no segundo andar em que moramos o bicho pegou. Ficou tudo escuro e o elevador parou sumariamente de portas fechadas.

Eram 10 e 15 da noite, conferi o meu Technos quadrado de fundo preto e ponteiros dourados.

- Agora é contar com a sorte - disse-me  - pode ser só um mini black out - nessas horas é preciso muito otimismo.

Preso ali na maior solidão ocorreu-me pensar no que seria pior. Podia estar a bordo do misterioso avião malaio que sumiu no mar da China e pôs meio mundo aflito nas buscas e nas especulações, das mais grotescas às mais quiméricas.

O que fazer?. Minha primeira reação foi tentar ligar pelo celular para a família. Queria dizer que estava tudo sob controle, assimilando sem traumas o acidente de percurso. Mas o sofisticado smartphone da Nextel calou como um aparelho sem serventia na adversidade.

Pimba, pensei. Nessa clausura não dá pra contar com o celular para fins de comunicação. Curioso, muitas vezes entrei no elevador falando ao telefone e a ligação não caiu.  Seria então pela falta de sinal em face do apagão? O que se há de fazer?


Foto do celular dentro do
elevador fechado
Apelei para a ignorância. Comecei a bater na porta com todo o vigor de minhas energias senis. Não tinha como mandar sinal de fumaça, que maluquice.  Mas também  não quis pedir socorro aos gritos. Seria ridículo, imaginei. E eu não estava nem um pouco ansioso. Um fenômeno psicológico que me persegue. Antes do enlace, paranóias em profusão.  Na tragédia consumada o sentimento instintivo fala mais alto. Disse-me então: a menos que fique preso aqui uma eternidade,  vou tirar de letra. Foi-se a fobia, derrotada pela eterna alegria de viver.

Às 10 e 20, sinais de vida exterior. Era a patroa com a pequena prole que intuiu: se eu saíra, podia estar de regresso.  Bingo. Ouvi o alarido familiar e me senti um outro homem. Não era mais um preso solitário naquele elevador bonitinho, mas ordinário.  Alvíssaras.

Estava parado praticamente rente ao meu andar.  Por três ou quatro segundos teria escapado. Mas certas coisas acontecem sempre nesses lapsos de tempo. Ao emitir a minhas primeiras palavras, fui logo dizendo:

- Estou tranquilo. Dá para esperar o socorro numa boa.

- Você está respirando bem? - indagou-me a patroa com a voz embargada. 
- Muito bem. Dá para passar a noite toda aqui...bem, mas se tiver alguém para abrir a porta logo, eu agradeço. 
Estava vindo de uma reunião do conselho do Saint Barth no salão gourmet com o pessoal da Promenade, e nossa atuante gerente Renata pra tratar da separação amigável com aquela empresa. Do conselho? Menos, todos foram chamados, mas só compareceram eu, o Márcio Grego e o Marcelo Massur, estes do bloco 2. Talvez os outros 11 estivessem prevendo o apagão ou aproveitando os prazeres de uma sexta-feira relaxante. Que todo mundo merece.

Tinha eu esbravejado mais uma vez nessa quase reunião contra essa inacreditável preferência pelas esteiras vips da academia, de R$ 23 mil cada, que substituíram outras ainda em uso, a um custo total de quase 600 mil (incluindo obras), enquanto todos os moradores, sem exceção, estão expostos às trevas dos apagões seguidos, contando com Deus para não experimentarem as clausuras dos elevadores.

Até ontem, falava pelos outros.  Com esse estágio na solitária de um elevador trancado a sete chaves, passava agora a ser protagonista dessa cada vez mais frequente situação desconfortável que a dezenas de vizinhos já afetou.

Não que tenham sido traumáticos os 25 minutos que passei trancafiado. Foi até uma boa oportunidade de ver que ficar dentro de um  elevador parado no escuro da noite não é um bicho de sete cabeças. Que não dá para abalar quem ainda não padece de certas fobias dessa modernidade enervante.

No meu caso, vale um registro. A gerente Renata, que participara da reunião, ainda estava aqui. E foi logo agindo, laçando o mecânico da Atlas que não levou nem um minuto para destravar a porta, ao chegar ao meu andar e resgatar-me, saindo  com ela à frente em busca de outros moradores presos em alguns dos nossos 33 elevadores.

Ao contrário do que sempre faço, não estava com minha máquina fotográfica que carrego de um lado para outro. Tentei fazer fotos pelo celular, mas as que consegui ficaram  feias. Esse aparelho é novo na minha vida e ainda estamos nos reconhecendo.

No fundo, não foi nada excepcional. A operação de resgate montada  pela patroa, com a ajuda da Selma, nossa vizinha cujo filho eu havia filmado na mesma situação, me ajudou a manter a descontração e o bom humor, remédios milagrosos em qualquer situação adversa.

Enquanto a gente não virar a mesa e nos livrarmos de alguns muquiranas que querem  deixar a questão dos geradores para uma emergência mais vulnerável a super-preços, todos os moradores correm o risco de passar por esse desconforto induzido pelo poder de pressão dos mesmos.

Mesmos, aliás, que estão tramando sem escrúpulos para transformar a mudança clamada em mais um frustrado sonho de uma noite de verão. E contra os quais precisamos ficar mobilizados: na impossibilidade de manter a farra falimentar, querem inventar um pau mandado para continuar fazendo as mesmas trapaças, impedindo que resgatemos a vida razoavelmente possível em que investimos.


PS. Depois de tudo isso, mais uma vez ficamos com o maldito sistema de ar condicionado avariado por conta desses piques.  E neste momento, 3 h e 45m, estou sentindo mais calor do que no elevador.

2 comentários:

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