terça-feira, 18 de março de 2014

Os meninos da Península

Uma visão abrangente do comportamento de alguns jovens impõe uma reflexão de todos os adultos

Uma preocupação sinistra ganha corpo cada dia mais entre nós, os habitantes desta Península de alma enigmática - os jovens que desfilam precocemente em carros e motos, brincam de skate no meio da rua, danificam móveis e equipamentos em seus condomínios e agem como se movidos por impulsos destrutivos, sem nenhum  noção  dos danos que causam ao patrimônio e ao conforto que também lhes dizem respeito. 
Não são muitos; são minorias ínfimas, mas o suficiente para incomodar, assustar e provocar uma onda de indignação. Clamam em coro nas nossas redes sociais ou bradam pessoalmente junto a quem de direito os pacatos quiméricos do viver em paz, que se esmeram no próprio desafio de orientar os seus filhos para o bem, aos quais dedicam a descoberta deste recanto de tantos encantos, embora estejam eles também vulneráveis aos desencantos em sua própria prole.  

À medida que no auge da justa indignação expõem seus relatos sobre atos insólitos e sem razão de ser, muitos moradores reclamam reações punitivas como remédios inibidores. "Se identificar os vândalos, a melhor maneira é fazer doer no bolso dos pais. Muuuuuulta neles" - cobrou uma moradora revoltada diante de uma foto na página dos Amigos do Saint Barth.

Resolveria? Provavelmente, sim; provavelmente, não. Em muitos casos, os pais também sofrem com a imaturidade agressiva dos filhos. Não exercem sobre eles esse poder do meu tempo de criança (faço 71 anos, hoje). E a própria vida moderna  desfigurou valores, exacerbou o lado mesquinho das pessoas, tornando piegas todas aquelas virtudes generosas cultivadas ao longo de séculos. Pior: abriu abismos até no seio da família, cada um para o seu lado, assimilando  competições e desconfianças inconscientes.

A modernidade produziu uma evolução, quando constrange a figura do pai tirano, autoritário, inquestionável. Mas nem sempre a substitui pelo pai moderador, respeitado. E ainda dá margem ao pai confuso, em muitos casos inconscientemente submisso, num nível de cumplicidade acrítica, excessivamente tolerante, passando uma imagem de culpa e covardia. 

A voracidade de uma sociedade imprevisível e exageradamente competitiva tem sumarizado a linguagem e inibido a comunicação interpessoal. Quanto tempo os pais dedicam aos filhos? Qual o nível de confiança mútua? Quando os filhos se sentem no dever de dar satisfação aos pais, nas mínimas coisas e em coisas drásticas?

Há uma certa confusão quando pais conferem à escola a tarefa de educar os filhos.  Na escola se busca instrução. Educação, não. Esta tem por núcleo a família - pai e mãe - em primeiríssimo lugar.

A vida moderna também comete um tremendo equívoco em assimilar filhos mimados.  No meu tempo de criança, eu tinha de fazer a cama e, como morávamos em casa, algumas obrigações instrutivas, como molhar as plantas.  Se usasse um copo, eu mesmo tratava de lavá-lo em gestos espontâneos. Pelos doze ou treze anos, curtia também aparar a grama.

Hoje, não. Não é todo mundo, claro. Mas tarefas mínimas que até estimulam o envolvimento familiar são transferidas a empregados. Talvez em muitos casos, numa cidade em que tudo é longe, de trânsito bloqueado, todo mundo deve sair correndo, para a escola ou para o trabalho.

Além disso, a tecnologia avassaladora prostra infantes diante do computador, do videogame e da televisão. Os jogos eletrônicos são arrebatadores e não passam valores, necessariamente. Pelo contrário, são verdadeiras usinas de matanças e os "heróis" nem sempre têm bons hábitos.

Será que os pais têm tempo para ver o envolvimento dos filhos em certos jogos que banalizam o uso de armas mortais e os atos de destruição e vandalismo? Você já viu o GTA 5, o jogo mais vendido no mundo em 2013?

Não, eu não estou dizendo que o videogame é inteiramente nocivo. Ele tem um valor compensatório, o de desenvolver raciocínios rápidos e respostas velozes. Mas não é nada bom deixar erguer-se uma muralha entre o convívio presencial familiar e o mundo viciante (e mercadológico) dos brinquedos eletrônicos.

Quando cometem atos de vandalismo no âmbito da comunidade, do condomínio, os jovens agem como se não tivessem fazendo nada de mais. Quando se antecipam no uso de motos e de carro, valendo-se o espaço "privado" não policiado da Península, não são inspirados por intenções negativas.  Move-lhes, sim, o sentimento precoce de viver como  seres e não como objetos, de ter sua própria noção de limites, bem diferente das nossas.

Nós nos incomodamos e cobramos o exercício da autoridade na defesa dos parâmetros legais e dos bons costumes. Não podemos permitir que a incúria de alguns pais exponha a todos, a começar pelos próprios filhos.

Mas eu pergunto: será que os que projetaram a Península consideraram o enorme contingente infanto-juvenil e estudaram de alguma forma suas expectativas?

Não serão ostensivamente adultos os equipamentos disponibilizados em nossos condomínios, como as piscinas e os SPAs?

Desde que cheguei aqui venho questionando a falta de um clube não exclusivamente esportivo na Península. Há uma moradora, formada em teatro, que faz um esforço enorme para repassar seus conhecimentos a essa juventude. Há uma escola de dança no Open Mall e um projeto de grande alcance para as crianças, o Circus, que não têm o apoio inteligente da Assape e dos condomínios.  Os equipamentos de arte, em geral, são esforços pessoais de alguns.

E não é só. No âmbito das comunicações, o que tem sido feito para aproximar jovens e todas as gerações? Por que não temos um estúdio experimental de tevê se a Rocinha tem um canal alternativo?

Em 1975, quando fui ser síndico do Edifício Alfa (por acaso uma obra da Carvalho Hosken) na Rua Lauro Muller, em Botafogo, havia muito mais problemas com a garotada, que não tinha nenhum espaço de lazer e era proibida de tudo.

Participando do teatro e ajudando a conservar,  garotada se tornou a
grande aliada na preservação do condomínio
Na época, eu escrevia teatro para crianças e vi nos jovens do prédio de 15 andares um sentimento contributivo reprimido. Como adotamos a autogestão, criamos a figura do "prefeitinho" por andar - era um desses meninos, com responsabilidade pela conservação e cumprimento das regras do regimento interno.

Além de envolvê-los como colaboradores das peças que encenava anualmente em temporadas que começavam no João Caetano (de 1.400 lugares), criamos o grupo de teatro do condomínio, formado por eles. Passado algum tempo, eram os filhos que estavam enquadrando os pais na defesa da conservação.

Na época, o nosso modelo de gestão teve ampla repercussão, com reportagens nos principais jornais e na tevê Globo. Essa experiência mereceu atenção do professor e educador Lauro Oliveira Lima, que a analisa em seu livro Mecanismos da Liberdade (Microssociologia), publicado pela Editora Polis em 1980.  No seu estudo, transcreve uma reportagem do semanário Movimento, sob o título "Edifício Alfa, onde viver é um barato" e escreve:  "Há muito procurava uma experiência brasileira, simples e convincente, para exemplificar aonde pode levar o treinamento em dinâmica de grupo e, sobretudo, que propiciasse uma definição nítida entre dinâmica de grupo e sensitivty troaning". E pondera: "Quem sabe se o Alfa não figurará, amanhã, como modelo pronto-histórico das mudanças dos homens dentro das células onde convivem?".

A experiência do Alfa é narrada também no meu livro O Poder da Rua, publicado pela Editora Vozes, em 1981, tendo como prefácio um artigo de Carlos Drummond de Andrade, no Jornal do Brasil de 11 de outubro de 1977, festejando a ALMA - Associação da Lauro Muller, primeira entidade de moradores de classe média do Rio de Janeiro, que emergiu da experiência do Edifício Alfa.
Será que é possível conseguir essa mudança nas relações 39 anos depois? Eu acho que sim. O importante é que todos se convençam que estamos no mesmo barco e que o condomínio somos nós, lema daquela experiência que, entre outros benefícios, produziu uma redução em 30% da cota condominial em plena época inflacionária.

19 comentários:

  1. Francamente já tinha colocado minha opinião e tinha muita consideração pelo Sr. mais vejo que o Sr. está equivocado lembro que eles não são marginais são adolescente,. vc deveria e os demais prestar atenção nos carros que andam enfiado dentro do Peninsula, e deveria postar que agora estão jogando o carro em cima deles, espero que isto não seja fruto de tanto
    odio e que esta sendo jogado em cima deles, já presenciei três motoristas mulheres e homens jogando o carro em cima deles., a cada ação a uma reação use o sem Blog para adminstrar o PAZ.

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    1. Oswaldo. Sugiro que você leia a matéria completa. Certamente não o fez.

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  2. Alessandro Vallone18 de março de 2014 15:04

    Amigo Oswaldo, não defendo ninguém jogar os carros em cima dos garotos., mas a attitude dos pais em larger a garotada na rua com motos e carros me parece descabida e perigosa, reflete de certa forma a formação e educação que estão recebendo em casa.

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  3. Tudo isso é fruto de uma sociedade corrupta, administrada por SERES HUMANOS desmoralizados, egoístas, mentirosos, e principalmente sem carinho, amor e paz no coração.

    Paulo

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  4. Desculpa, não entendi a montagem da primeira foto.

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  5. Parabéns por sua reflexão Sr.Pedro Porfiro, sou professora e acompanho muito de perto esta angústia e preocupação com esses jovens , num mundo onde já não se preserva o respeito, os limites e a propria vida.
    Cristina

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  6. Realmente acredito que não são vândalos e com certeza todos eles tem pai e mãe. Porém pilotar em vias publicas, qualquer veiculo automotor tem que ter habilitação, mesmo que seja, quadriciclos, mobilete, motos 50cc. É proibido menor pilotar pois este ainda e inimputável. Mas sejamos francos a responsabilidade não é do menor e sim dos pais. Nunca e demais lembrar que as ruas da Península são vias publicas. portanto e proibido condução de menor. Solução simples e só chamar a guarda municipal para tomar as providencias cabíveis. Infelizmente as providência só vão ser tomadas quando acontecer um acidente sério ai todo mundo se mexe.

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  7. Sergio Medeiros Jr. (por e-mail)18 de março de 2014 23:49

    Caro Porfírio, RESPEITO sua opinião, mas se observar a velocidade dos carros dos adultos na Península , estacionamentos irregulares , fezes de animais nas ruas , pais andando com crianças de 4 ou 5 anos com teto-solar dos carros abertos e as crianças com metade do corpo para fora , etc... . O senhor chegara a conclusão de que esses jovens são o reflexo da educação que recebem em casa,portanto acho que esse assunto é mais direcionado aos adultos que aos jovens .
    Sem mais,Sergio Medeiros Jr.

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  8. Excelente matéria Sr. Porfírio. Vivemos o efeito cascata de uma deformação social evolutiva. No Brasil nas grandes metrópoles onde sua população economicamente ativa é arrastada pelas altas despesas e excesso de consumismo, a competição de quem tem e pode mais, é infelizmente bem aceita e incorporada para atender "padrões" inequívocos de valores e conduta, com isso impõe de forma massiva o dever de mulheres mães estarem no mercado de trabalho, com a desculpa de determinar a liberdade e autonomia feminina. Vejo que de forma inconsciente, mas voluntária estas mulheres colocam a EDUCAÇÃO de sua prole sob a custódia de escolas, centro de convivências, creches e afins... e seguem com um paradoxo que as angustia e massacra, cheia de críticas a si mesmas e muitas vezes pouco realizadas - atender os "padrões" sociais que insiram a si e sua família a classe social almejada ou atender seu instinto materno de proteção e cuidados? A CULPA e o cansaço desta batalha diária são propulsores da permissividade e falta de autoridade. Um círculo vicioso que vem se perpetuando, hoje enfrentamos e tentamos driblar efeitos e amanhã? Apenas uma reflexão. Esther

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