domingo, 30 de novembro de 2014

Perigo na Avenida das Américas

Reportagem em O GLOBO deste domingo mostra que os pegas na Barra já reúnem mais de 600 pessoas, assustando os moradores


ALESANDRO LO-BIANCO 

0 GLOBO





RIO —Após a arrancada, bastaram 15 segundos para um Camaro turbinado atingir 200km/h e ganhar, na última terça-feira, um “pega” entre os números 9.500 e 10.560 da Avenida das Américas, um dos três pontos usados por um grupo que faz disputas ilegais na Barra. Adeptos das corridas clandestinas revelaram ao GLOBO que 600 motoristas e pilotos de motos participam de “pegas” no bairro.

Entre os corredores, há estudantes, médicos, advogados, empresários, um tenente da Marinha e até um juiz federal. Todos dispostos a investir até R$ 200 mil para turbinar um carro e infringir a lei. Eles admitem que as corridas oferecem risco de acidentes graves, como aconteceu com o empresário de 64 anos que morreu há duas semanas, ao ter seu automóvel atingido por dois veículos que faziam um “pega” na Avenida das Américas.

Nada parece, no entanto, intimidar o grupo, que reclama da falta de um espaço adequado para as suas disputas. Os motoristas dizem que, com a desativação do Autódromo de Jacarepaguá, em 2012, ficaram sem uma pista para suas corridas e foram para as ruas. Neste domingo será realizada a manifestação “Queremos autódromo”, em frente à Arena da Barra, com a participação de motoristas que fazem “pega”.

— Nossa luta é pela reconstrução de um novo autódromo, seja lá onde for, mesmo fora da cidade. Falta vontade política — diz o advogado Wagner Soares, da Associação de Motociclistas Amadores e Profissionais do Rio (Amapro), que participará do ato, mas condena os “pegas”.

Ferrari, Porsche e BMW

Assustados com as corridas disputadas em alta velocidade na porta de casa, moradores do Condomínio Novo Leblon e do Residencial Riserva Uno enviaram um ofício a autoridades, no início do mês, pedindo uma solução para o problema. Segundo eles, os “pegas” acontecem até três vezes por semana. Um morador conta que, após as 21h, um grande grupo se reúne na Avenida das Américas, na altura do número 7.000, para disputar as corridas clandestinas.

— Não sabemos mais o que fazer. São motos e carros produzindo muito barulho. Não nos deixam dormir até as 5h — diz um aposentado de 72 anos.

O GLOBO esteve terça-feira no local apontado pelo aposentado e encontrou cerca de 50 jovens participando de um “pega” ou assistindo à corrida. Alguns corredores aceitaram falar, desde que não identificados.

— Muita gente gosta de sair do trabalho e ir tomar uma cerveja — disse um dos motoristas. — Eu não bebo. Somos apaixonados por carros e velocidade, como outros são apaixonados por tênis. Sabemos que estamos cometendo um crime, mas vamos continuar na rua enquanto não houver uma solução.

Ele comprou uma Ferrari por R$ 300 mil e gastou mais R$ 200 mil para turbiná-la com um motor de mil cavalos. Além do veículo italiano, há quem dirija Porsches, Subarus, Camaros, Mercedes e BMWs. No entanto, para não chamar a atenção da polícia, já há corredor usando veículos comuns — mas com motores similares aos de máquinas que podem chegar a 300km/h. É o caso de uma engenheira de produção de 36 anos. Ela trabalha numa multinacional e esconde sob o capô do seu Voyage 76 um motor de 400 cavalos:
— Quando o autódromo fechou, comecei a participar dos “pegas”, porque o que me dá prazer é correr.

A Confederação Brasileira de Automobilismo diz que é contra os “pegas”, mas acusa o poder público de não ter construído um novo circuito logo após o fechamento do Autódromo de Jacarepaguá, demolido para dar lugar ao Parque Olímpico. O projeto de uma nova pista em Deodoro está parado por causa de um processo na Justiça.

O comando do 31º BPM (Barra) informou que “realiza todas as semanas operações de trânsito que envolvem orientação, fiscalização e repressão no eixo Avenida das Américas e Avenida Ayrton Senna, sempre planejadas a partir de coleta de dados junto aos moradores atendidos.” Ninguém foi preso até agora por fazer “pegas”.

Pelo Código de Trânsito Brasileiro, o motorista que participa de corridas clandestinas deve ser punido com detenção de 6 meses a três anos, além de multa e suspensão da carteira.

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