quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

As alvíssaras do meu terceiro turno

Nesta crônica de mim mesmo o relato de uma odisseia emblemática. Por ora, tudo bem até o ano que vem

Os nódulos que apareceram na ressonância (acima) sofrem combate (abaixo)

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Passadas 18 horas dos 90 minutos cravados em que a equipe do professor Feliciano Azevedo deu combate à nova investida dos tumores malignos alojados em meu fígado, já em casa e ligado em todas as expressões da vida – do condomínio domiciliar ao grande cenário nacional –, debruço-me em mais essa crônica de mim mesmo para dizer, no seu introito, que a "boca de urna" desse terceiro turno saiu melhor do que as expectativas, apesar das margens de erros. O veredicto, porém, só na alvorada do ano vindouro, quando submeter-me à prova dos nove daquele tubo barulhento em que enfiamos o corpo até o pescoço.  


 Retomo a parábola oncológica por alguns impulsos: o primeiro, as centenas de mensagens por todos os meios fluentes através da web, todas de arrepiar a pele sensível e irrigar o coração bucólico; algumas marcantes por sinalizadores comoventes.

À minha catarse de terça-feira, seguiram-se fartas manifestações de energia positiva, entre as quais destacaria as de dois homens públicos de minha geração, Cristovam Buarque, que faz 71 anos em 24 de fevereiro, e Roberto Amaral, que completa 75 agora em 24 de dezembro, passageiros dos mesmos sonhos, entre trancos e barrancos.

"Caro Pedro Porfírio, neste terceiro turno estarei votando com o mesmo fervor do primeiro e segundo,
Por sua vitória.
Abraço
Cristovam"

"Porfírio
Você é o que posso chamar de UM Homem. Um grande homem. Eu me orgulho de você. Voltaremos à Praça do Ferreira.
Até lá.
Roberto Amaral"

Segundo, a compreensão da natureza humana cada dia mais aguda, sem essa do Gabriel Garcia Marques dizer que a sabedoria só nos chega quando já não serve para nada. Ao invés, minha crônica – a exposição em relevo indiscreto do meu cérebro nervoso – é um fragmento letivo sobre uma possibilidade que a todos toca por instintos conscientes e inconscientes.

Terceiro, ao exibir uma situação tão íntima, como já ressaltei outro dia,  procuro desmitificar traumas atávicos e colaborar na distensão sobre o existencial de cada um, distante do sensacionalismo que dá sortida audiência a programas televisivos, mas explícito numa proposição audaciosa em nosso pequeno círculo. É a oferta de um espelho a muitos que se imaginam fora de qualquer foco mortífero imediato e que nem sempre estão preparados para os caprichos pérfidos do destino.

O que está me acontecendo é o mais incisivo conflito do ser ou não ser, aceitar ou não aceitar, acreditar ou não acreditar, pressionado por um turbilhão de alto teor explosivo. Situação análoga jamais experimentei, mesmo nos idos tenebrosos em que ofereci minha juventude aos carrascos.

Que paradoxo. Quando tinha uma vida longa pela frente, gozava fervorosamente no supor da cruz reservada precocemente aos intimoratos d'antão.  Já nestes dias senis, ao contrário, não quero nem ouvir falar em fechar os olhos. Antes, quero tê-los cada vez mais arregalados, na suposição da minha multiplicadora capacidade de repasse do conhecimento com valores agregados.

Foi o que me veio à cabeça ao sair de casa às 13 horas desta terça-feira, 2, iniciando uma longa marcha pelas ruas empanturradas da Barra da Tijuca, passando sob o populoso morro da Rocinha, em direção à Casa de Saúde São José, obra da congregação das irmãs de Santa Catarina, que em 1923 se instalaram por ali, na fronteira de Botafogo com Humaitá.

Já era a terceira vez que ia ao simpático hospital, se é que se pode ter como simpático um mero nosocômio de discretas, mas prevalecentes saliências mercantis. O ramo hoje está no ápice da pirâmide negocial e atrai grandes investidores, como o Banco Pactual, que controla a pomposa rede D'Or.

Passei a lidar como protagonista no enfrentamento de um CHC - Carcinoma Hepatocelular – ainda no seu estágio precoce, com 3,8 cm. Na primeira quimioembolização, ele diminuiu para 1 cm: na ablação, praticamente sumiu. No entanto, recompôs suas forças malignas e reapareceu sob forma de pequenos nódulos próximos ao local onde havia sofrido os ataques anteriores.

Foi por isso que voltei à sala de hemodinâmica da citada Casa de Saúde São José, escoltado pela equipe do professor cinquentão Feliciano Azevedo, pioneiro na introdução dessa técnica no Rio de Janeiro.  

Por motivos incorporados à civilização brasileira a nova quimioembolização, realizada com anestesia local e sedação, começou com atraso de duas horas. Essa maravilha do mundo moderno é algo tão recente que não há tais ainda raros especialistas cadastrados na Sul América, plano de saúde do Sindicato dos Jornalistas para o qual contribuo há quase 20 anos. 

quimioembolização consiste na introdução de um cateter na virilha que alcança o tumor através de partículas com medicações quimioterápicas no interior do vaso sanguíneo afetado em alta concentração. Por sua ação direta, usa apenas 10% da carga de uma quimioterapia tradicional, evitando terríveis efeitos colaterais, pois não atinge as células saudáveis. As medicações concentram-se no tumor e entram no interior de suas células, enquanto as partículas obstruem sua nutrição sanguínea, resultando na morte das células tumorais. Num rápido passar dos temos, o tumor regride.

Não é o único procedimento da radiologia intervencionista. No segundo, em maio passado, submeti-me a uma ablação por radiofrequência, com uma corrente elétrica transmitida por uma agulha que provoca aquecimento e uma lesão térmica no tumor.

Sabendo dessas virtudes de cor e salteado tinha por mim que o acompanhamento por ressonância magnética seria mamão com açúcar. Já havia descoberto um aparelho "de amplo espaço" que recebia minha barriga protuberante sem sufocar e estes exames estavam no preço, cobertos pelo tal plano. Daí a minha insatisfação com a volta aos holofotes do hospital, como se começando tudo outra vez.

No entanto, fora do atraso e da má vontade dos técnicos de enfermagem que atenderam na noite de anteontem para ontem, posso dizer que psicologicamente essa reentre foi compensadora.  O organismo nunca reagiu tão bem, configurando uma "boca de urna favorável" e presumindo um resultado positivo na hora da checagem por imagens.

O conjunto das mensagens é confortante porque consolida a idéia de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, isto é, trocando em miúdos, que opções políticas e afeto podem ocupar regiões autônomas em nossos cérebros.

Resta saber se continuarei me mortificando diante do noticiário sepulcral no âmbito geral ou se recorrerei a um equipamento de anti-espanto de longo alcance, nessa eternizada prática generalizada de dar tempo ao tempo, mesmo esse tempo cinza que manhã não faz. 

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9 comentários:

  1. Força, meu amigo. Vai dar tudo certo! Saúde!

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  2. torcendo por você, certa que vai dar certo

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  3. Olha, dá gosto ler o que o Senhor escreve. Se até sobre câncer, assunto que me mata de medo, seu texto me encanta, quiça sobre os assuntos mais felizes. Continue forte por muito tempo ainda. Desejo toda a sorte. Abraços.

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