terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O terceiro turno do meu figado


Ao contrário do que me foi dado a crer no final do último outono, aquele tumor insólito que atacou meu fígado com ares de exterminador não foi para o espaço.  Os dois procedimentos no âmbito da radiologia intervencionista produziram a sensação de vitória, conforme a ressonância magnética de junho, mas, como essas facções golpistas que não aceitam perder, ocupou espaços adjacentes e voltou a exigir um novo combate.
Hoje, ao cair da tarde, estarei sendo submetido a um novo procedimento de quimioembolização pelas mãos do professor Feliciano Azevedo e de sua equipe. Nesse terceiro turno, vou à luta com as mesmas expectativas positivas, mas um tanto indignado, para não dizer atormentado.

É que o resultado da última ressonância feita no 9 de outubro primaveril revelou um adversário teimoso e provavelmente muito mais poderoso do que detectam os diagnósticos.

Caramba, logo comigo – protesto.

Diz-se que essa nova intervenção é mais pela necessidade de inibir. Os oncologistas juram que não enfrento uma metástase e todos dizem, como soe acontecer, que venceremos esse terceiro turno com a mesma tranquilidade dos turnos pretéritos.

Será?

Como se sabe, a história não se repete a não ser como farsa, tal a sentença do barbudo alemão. Em assim sendo, o homem que entrará na agulha hoje já não será o mesmo serelepe da primeira vez, no ocaso da primavera passada, nem o cheio de si do segundo turno, no auge do último outono.

Nem podia ser. Tanto que ao saber da necessidade de baixar hospital outra vez, há 5 semanas, o desapontamento reduziu minha faina de escriba implacável.  Tudo de desagradável povoou o imaginário de uma cabeça quente e produziu uma sensação de combate desigual.

Mesmo assim, no mergulho diuturno das profundezas das informações, vou aproveitando cada dia de vida com um peso maior e um sentimento mais consistente.

Diz-me um lobo que passarei por essa procela como atravessei galhardamente a tantas outras. O outro, porém, contesta na sua ode pessimista. Qual prevalecerá?

Viver é tudo que qualquer ser humano deseja, um viver infindo, apesar das palavras axiomáticas dos existencialistas, tão bem refletidas por Simone de Beauvoir, em Todos os Homens são Mortais.

E não é só pelos que ainda precisam da gente. É um instinto natural que mobiliza a cada um. Não vai ser agora, que a população brasileira dá mais um passo na sua longevidade que vamos aceitar qualquer trama sorrateira do destino.

Não vamos, mesmo.

Por isso, hoje, quando entrar na máquina e o professor Feliciano introduzir o cateter pela virilha em busca dos nódulos recalcitrantes, espero apaixonadamente por uma vitória transcendente neste terceiro turno do meu fígado contra o tumor maligno.

E que logo, logo o mais gostoso dos sorrisos desponte de minha fronte ainda juvenil, apesar do adorno dos cabelos prateados.

Assim, espero que nesse verão todos estejamos fruindo do amor à vida em torno das luzes dessas noites natalinas tão enigmáticas, mas sempre cintilantes entre alegrias e esperanças. 

13 comentários:

  1. Boa sorte, meu querido. Vai dar tudo certo. Abs.

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  2. sucesso e felicidades

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  3. www.paieterno.com.vr e as maravilhosas novenas do Pai Eterno e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.canal 193 Rede Vida,vou pedir bençãos e o restabelecimento de sua saúde.Elizabeth

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  4. Boa tarde amigo Porfirio! Estou na expectativa dos seu próximo post dando conta de que vc superou mais essa. Ate breve com good news! Abs. Isa

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  5. Quero aqui registrar meus agradecimentos a todos os autores dos comentários acima. Já estou em casa. Foi a melhor reação do organismo à quimeoembolização.

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