domingo, 2 de agosto de 2015

Do meu exílio domiciliar


Minha casa, minha (nova) vida, um pintura do real.
"Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte"MÁRIO DE ANDRADE (poeta, 1893 – 1945)"O valioso tempo dos maduros" 
Bem que eu preferia permanecer em silêncio nesse frugal exílio domiciliar a que me recolhi nas vargens longínquas ante a patética percepção de que minhas palavras já não têm serventia: o vento leva por que sua essência caiu em desuso letárgico no cataclismo de um mundo acorrentado à hipocrisia e à mediocridade.

Bem que já estava começando a curtir a vida às avessas que os prados mansamente matutos e o plantio frondoso ao palmo do nariz nutrem, vacinando-nos do vírus da encrenca e mandando para o inferno o áudio das sandices e boçalidades que nos horripilam na indecência da convivência pragmática.

Juro por tudo quanto é sagrado: eu não queria mais pular tantas fogueiras e porfiar com a fina flor da má fé, do arrivismo e das ambições desmedidas, eis que, enfim, ao cabo, minha cota de complacência com o egoísmo esgotou-se sem choro, nem vela.

De umas luas para cá vi revelar-se a torpeza do jogo de cartas marcadas, a insana corrida ao poder, qualquer poder, COMO SE A VIDA DE UMA PÁTRIA FOSSE DECIDIDA NUM GRANDE RINGUE DE PERFÍDIAS E RASTEIRAS, cada qual tratando única e exclusivamente de seus interesses pecuniários nada republicanos.

A saúde já não é a mesma, quer pela idade provecta, quer pelos acidentes de percurso, essa guerrilha sofrida que me obriga, por ora, ao cloridrato de tramadol diário e à ressonância magnética de quando em vez.

Ferem-me como uma flecha, mais ainda, os próprios sentimentos de impaciência, frutos da trágica constatação de que O SISTEMA DE CASTAS TRIUNFA GALHARDAMENTE, ABESTALHANDO MULTIDÕES BEM APESSOADAS, SEJAM PORTADORAS DE CANUDOS E ANÉIS, SEJAM EMASCULADOS DA TURBA IGNORANTE E SUBALTERNADA PELA INÉRCIA VIRAL SEM CURA, SOB INFLUÊNCIAS NOCIVAS DA FÉ INDUSTRIADA.

Mas a previsão do tempo é assustadora. Os maus presságios a todos ameaçam numa torrente de vilipêndios irresponsáveis e inconsequentes, sujeitando-nos às mentes monstruosas que se multiplicam aos borbotões como ferramentas atômicas de terras arrasadas, produzidas maliciosamente por vestais de encomenda, na torpe maquinação do "quando pior melhor".
O certo e incontestável é que o retrocesso se deu pelas mãos de quem o esconjurava, num irreversível e inacreditável passo atrás. A terra virou pântano e o pântano virou lama. 
Sobrará para todos pela marcha de um trem veloz sem condutor. Há todo tipo de odores no ar. Insuportável é a ansiedade. Onde vamos chegar só Deus sabe. E olha que até o tal expatriou-se ao ver-se em tantos maus lençóis. Não há pra quem apelar: todos estão envolvidos com tudo até o pescoço.

Em verdade, vos digo: eles venceram na inversão das urnas. Mas ainda acham pouco. Não aceitam coadjuvar. Querem ir para o trono e assumir o reino de fio a pavio. À falta de "coriolanos" forjam um exército virtual armado até os dentes. Este país é uma mina que sobe a cabeça dos sem escrúpulos. Tomá-lo às mãos é o que interessa.

Vilões de assombrosas fichas sujas dão as cartas, apostando na concentração do ódio e na mescla de revanches e indignidades. Não há uma réstia de lucidez nesses bolsões vingativos. Todos querem uma única cabeça, mesmo associando-se ao pior da escória moral. 

E querem por que não aceitam o próprio fiasco. Para isso, se valem de tudo, sem menor apego aos cânones dos bons modos. Nada mais deprimente e enlouquecedor. Nada mais agressivo e perturbador.

Daí a dúvida atroz: é correta a fuga à liça, mesmo sabendo que apenas uma meia dúzia de três ou quatro se tocará ao meu juízo, à peroração de um mais vivido, casualmente à prova de comprometimentos mesquinhos, assim em condições de falar apenas para defender o áureo convívio institucional, o respeito à ponderação, sem poupar os malfeitos gerais, na perseguição de um outro país que nascerá desse imbróglio insólito?

Dias e noites os tormentos do isolamento voluntário me tangem na direção da pugna, desautorizando promessas que me fizera em busca da paz e do sossego que qualquer ser vivente tem o direito de almejar com o benefício da contribuição pretérita. 

São vozes e imagens dantescas, mais altissonantes do que o canto dos pássaros à varanda, mais saltitantes do que o firmamento contemplado já ao crepúsculo no entardecer.

Não me animo à consulta aos entes queridos. Eles testemunharam minha derrota acachapante, não faz muito. Preferem-me à deriva, no exercício do silêncio obsequioso, no conforto quimérico do ostracismo, protegendo-me dos atritos no confronto estéril das palavras.

Acham que tudo o mais será inútil, de onde a opção fatal: dos males, o menor. Será?

Por hoje é só. Agosto já está começando, sombrio, apoplético e catastrófico, com os maus agouros de sua sina zodiacal. O que fazer? - perguntaria o velho prócer doutra época. Quem se dignaria a responder? É pegar ou largar. E nada mais.

9 comentários:

  1. Caramba meu caro Porfirio!
    Você conseguiu falar muito (e muito bem!) sem conseguir dizer absolutamente nada!!!
    Parece-me que é tamanha sua decepção e surpresa com a interminável sequência de eventos que o fez perder sua clareza e objetividade!

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